domingo, 2 de janeiro de 2005

O peixe e a flor

Ele não tem muito tempo restante na Terra como espécie. É lento, preguiçoso... muito pouco ágil. Por sorte está protegido e não tem mais predadores, o que lhe dá um tempo maior. O conheci aqui no rio e foi também aqui que a conheceu. No curto tempo em que foi à procura do ar, encontrou uma flor de beleza inédita para ele. Amada e amante dos animais, ela sorriu para o peixe-boi que lhe apareceu. Lavou as mãos na beira do rio e assim molhou as pontas dos cabelos negros.

Após esse ligeiro encontro meu vizinho só falava dela. Eu não a tinha visto e não entendia por que meu amigo peixe-boi, sempre tão calmo e indiferente havia se encantado dessa maneira por uma humana. Ele sonhava com a possibilidade de vê-la todos os dias e dizer-lhe, como um desjejum, o quão bela ela era. Tendo em mente que era impossível falar com ela, lembrou-se que eu podia adquirir a forma humana e pediu-me desesperadamente que fosse a encontro da sua amada. Ele tinha medo da minha índole e implorou-me que eu não fizesse mal a ela. Pobre peixe-boi, não tinha mais a quem recorrer e sentiu-se obrigado a confiar sua amada a um boto cor-de-rosa.

Assim que a Lua me favoreceu fui à procura da sua amada e a encontrei a poucos metros do rio, olhando para o céu e sorrindo para os astros. Soube imediatamente que era ela, pois reagi da mesma forma que o peixe-boi. Fiquei um longo tempo admirando aquela beleza que emprestava sua luz à lua. Podia sentir o cheiro que exalavam seus cabelos no meio daquela flora invejosa. Visivelmente mestiça, suas mechas negras se destacavam ao lado do seu corpo empalidecido pelo luar.

Em meio a tanta excitação, deixei escapar um ruído que a trouxe até mim. Diante daquela pele, mais macia que as pétalas das flores, esqueci-me de todas as palavras que havia decorado para satisfazer meu colega. Esqueci-me até dele, diante daquele sorriso encantador. Nessa noite fizemos coisas que eu jamais poderia contar ao peixe-boi. Retornei ao rio antes do amanhecer e nunca mais retomei minha forma humana.

As últimas notícias que tive dela foram pelo próprio peixe-boi. Ele veio até mim, com um olhar mais triste que o que já possuía, dizendo-me que ela não sorria mais.

Tenho medo de chegar perto das margens novamente e ganhar o olhar melancólico do meu conhecido. Se já não o tenho. Só tenho nadado em águas que não me espelhem.

De vez em quando encontro um garoto nadando nas águas hostis do meu rio. Toda vez que me encontra me fita da mesma forma que fitei sua mãe. Ele me diz que em poucos anos vai poder falar comigo. Depois solta um sorriso conhecido e volta para a margem como quem já nasceu nadando.

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