segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Até o amanhecer

A madrugada é para mim o melhor momento para o homem se encontrar consigo mesmo. É quando todas as obrigações estão adormecidas e as esperanças se renovam. É o momento da espera, o momento do encontro e também das decepções. São as ditas horas mortas em que a vida tem a oportunidade de se manifestar de maneira mais real. Seja na solidão da reclusão do lar ou numa festa interminável que ignora o canto dos pássaros que acordam junto à alvorada.
É nesse período em que se encontram e se separam os amantes, em que a sonolência do mundo permite que a imaginação dos noctívagos crie asas para realizar grandes feitos. É quando se realizam e se desmascaram as infidelidades, quando se firmam as grandes parcerias e quando ocorrem a maioria das fecundações. É a madrugada meu momento favorito do dia. Dormi-la parece-me um desperdício. Perder o nascer do sol um sacrilégio. Viver sob o sol escaldante uma tortura.
Mas ela é minha. E nela vivi grandes aventuras. Conheci novos amores, me decepcionei com os antigos, fui fecundada e senti os primeiros sinais do início da maternidade, que me manteve acordada madrugadas a fio. Conheci novos amores. Me decepcionei com os antigos. Remoí os antigos. Revivi os antigos. Desejei revivê-los. Desejei reviver amores que nem chegaram a se tornar amores. E mesmo quando dormia, sonhava na madrugada a realização do impossível.
Escrevi. Apaguei. Adorei, detestei. Mas amei, amei, amei e por isso amo a madrugada.

2 comentários:

Samuel Gois disse...

E é de madrugada que respondo. Já fui mais íntimo dela, e lembro com deleite desses momentos. Mas lembro que foram, também, nomentos difíceis da vida. Hoje tento viver anestesiado, fujindo da deflexão ou ponderação, da luz do monitor em meu rosto, das idéias que queimarão durante isso. Mesmo assim acordo as vezes e tenho boas surpresas, como o seu texto :*

Thaïs disse...

Ou, gata ;~