segunda-feira, 12 de maio de 2014

Porque eu desisti do futebol


Ao contrário do que pensa o senso comum, mulher gosta de futebol sim. Não por causa das pernas do jogadores, mas porque gosta de jogar, assistir ou mesmo xingar o juiz enquanto toma uma cerveja na frente da televisão. Mas enquanto de um lado o estímulo existe desde antes mesmo de se começar a andar, do outro é mais comum o desestímulo diante de qualquer demonstração de interesse, porque afinal, "não é coisa de/pra mulher". Claro que esse texto é um reflexo do acontecido recentemente a Fernanda Colombo diante de um erro de arbitragem, mas minha história de decepção com esse esporte começou ainda na infância.

Como a maioria das crianças, eu gostava de me movimentar, praticar esportes e entre eles, o futebol. Quando tinha cerca de onze anos, junto com minhas colegas de sala, solicitamos à escola a criação de uma escolinha para meninas. Mas por que simplesmente não nos juntamos à turma dos meninos? Porque ao contrário deles, nós não tínhamos sido incentivadas a praticar o esporte desde sempre, nós resolvemos, àquela altura do campeonato, começar, enquanto os meninos já nos driblavam só em pensamento.

No início foi tudo lindo. Nós adorávamos a escolinha e adorávamos praticar o esporte. Nos divertíamos sendo meninas jogando futebol, sem intimidações, sem dribles vexatórios, sem (grandes) boladas. Entretanto, suponho que manter uma turma só com cinco meninas não era negócio pra escola, então resolveram nos juntar a uma turma de meninos mais novos. O que não significa que o nível deles fosse semelhante ao nosso, o que aos poucos foi resultando no nosso desinteresse, com os dribles e as lembranças constantes dos nossos colegas de que futebol não era coisa de menina.

Não que para praticar o esporte seja imprescindível um cromossomo Y ou uma benga entre as pernas, mas porque qualquer mulher que ouse entrar nesse meio corre o risco de passar por um corredor polonês de humilhações. Em qualquer esporte (ou na maioria deles), é comum pensar na categoria feminina como "secundária", supondo que a mulher, sexo frágil, não possa competir com um homem, muito menos superá-lo. Entretanto, no "país do futebol", é nesse esporte que a disparidade é maior. Enquanto jogadores muitas vezes recebem cifras milionárias, as jogadoras sequer aparecem na televisão (exceto nas Olimpíadas) e pouco ou nada se fala sobre o futebol feminino, mesmo depois da Marta.

Resta às mulheres trabalharem nesse esporte na arbitragem, mas não sem antes terem sua capacidade e competência seriamente postas em xeque unicamente por causa de seu gênero. Erros de arbitragem são comuns no futebol, diria até que são corriqueiros. Mas se o erro for cometido por uma mulher, torna-se um pecado capital imperdoável e quando não nos mandam lavar a louça, mandam posar pra Playboy.

Só fui a um estádio uma vez na vida, num jogo entre Vasco e Campinense em Campina Grande. Em um dado momento, antes mesmo de começar o jogo, três mulheres passaram na frente das arquibancadas, o que foi suficiente para insuflar atitudes simiescas dos homens do lugar, que acharam de bom grado insultá-las e ridicularizá-las apenas por serem mulheres transitando em um estádio de futebol. Claro que o meu desinteresse no esporte também tem a ver com o fato de grande parte dos jogadores terem mais afinco em simular faltas do que em jogar propriamente, assim como os desvios relacionados, a violência e o preconceito não só contra as mulheres, mas também contra os homossexuais. Se o Brasil é o país do futebol, o futebol é o esporte da intolerância.

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