sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Caçando calangos: primeiro capítulo III

Quando saí de casa, minha cadela estava fuçando as pedras do quintal atrás de lagartixas. Ela foi contaminada pelos homens calangos, pensei. Eu estava ficando paranóica. Pelo menos foi o que concluí naquela hora. Ela nem me deu atenção enquanto eu era ‘escoltada’ pelos calanguinhos. Não pude me despedir dela nem da minha família, fui informada pelos homens que eu não poderia informar a minha missão a pessoa alguma, e por isso me obrigaram a deixar o celular desligado em casa. Eu só poderia me comunicar por e-mails devidamente autorizados. Eu estava em cativeiro. Eu estava sendo mantida em cativeiro por um calango.
Malditos sulistas e malditos nordestinos. Eu estava cagando e andando pra toda essa história de levar o calango pro sul. Eu queria ficar junto da minha família, do meu namorado, da minha cadela, queria continuar o meu curso (que agora eu provavelmente seria muitíssimo prejudicada sendo reprovada por faltas), queria arranjar um trabalho pra comprar aquele depilador eletrônico, queria comprar uma roupinha pra minha cadela não passar frio e queria continuar minha coleção de mangá.
Mas não, vá ajudar os fracos e oprimidos nordestinos que estão sendo tão injustiçados. E não sou eu uma fraca e oprimida nordestina? Quer injustiça maior que obrigar uma jovem de dezenove anos a obedecer um maníaco que acredita ter o plano perfeito para acabar com os preconceitos contra os paraíbas?


No Rio de Janeiro fui hospedada em um quarto com apenas uma cama de solteiro (o maldito nem pra me arranjar uma cama de casal), um computador ligado à internet e um guarda-roupa. Como não tive tempo nem de pegar um livro antes de sair de casa, só me restou o computador para entretenimento. Depois de colocar minhas roupas todas no guarda-roupa, liguei o computador e tive mais notícias do calango chefe.

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