Quando saí de casa, minha cadela estava fuçando as pedras do quintal atrás de lagartixas. Ela foi contaminada pelos homens calangos, pensei. Eu estava ficando paranóica. Pelo menos foi o que concluí naquela hora. Ela nem me deu atenção enquanto eu era ‘escoltada’ pelos calanguinhos. Não pude me despedir dela nem da minha família, fui informada pelos homens que eu não poderia informar a minha missão a pessoa alguma, e por isso me obrigaram a deixar o celular desligado em casa. Eu só poderia me comunicar por e-mails devidamente autorizados. Eu estava em cativeiro. Eu estava sendo mantida em cativeiro por um calango.
Malditos sulistas e malditos nordestinos. Eu estava cagando e andando pra toda essa história de levar o calango pro sul. Eu queria ficar junto da minha família, do meu namorado, da minha cadela, queria continuar o meu curso (que agora eu provavelmente seria muitíssimo prejudicada sendo reprovada por faltas), queria arranjar um trabalho pra comprar aquele depilador eletrônico, queria comprar uma roupinha pra minha cadela não passar frio e queria continuar minha coleção de mangá.
Mas não, vá ajudar os fracos e oprimidos nordestinos que estão sendo tão injustiçados. E não sou eu uma fraca e oprimida nordestina? Quer injustiça maior que obrigar uma jovem de dezenove anos a obedecer um maníaco que acredita ter o plano perfeito para acabar com os preconceitos contra os paraíbas?
No Rio de Janeiro fui hospedada em um quarto com apenas uma cama de solteiro (o maldito nem pra me arranjar uma cama de casal), um computador ligado à internet e um guarda-roupa. Como não tive tempo nem de pegar um livro antes de sair de casa, só me restou o computador para entretenimento. Depois de colocar minhas roupas todas no guarda-roupa, liguei o computador e tive mais notícias do calango chefe.
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sexta-feira, 5 de agosto de 2005
quinta-feira, 28 de julho de 2005
Caçando calangos: primeiro capítulo II
Eu precisava saber mais antes de me meter em um avião para o Rio de Janeiro. Pelo menos eu esperava que fosse um avião. Só faltava ele querer me mandar em um pau-de-arara.
Esperei que fosse tudo um mal-entendido. Esperei que o subalterno dele fosse mais idiota que eu e tivesse abordado a garota errada, mas eu sabia que isso era muito improvável. Alguém que soubesse tanto da minha vida não cometeria um erro tão banal. A única coisa inaceitável era abaixar a cabeça para tudo e seguir copiosamente o plano desse tal C.
Escrevi novamente para o e-mail dele, mas a única resposta de recebi foi uma “mail delivery failed”. E agora? Seria eu obrigada mesmo a largar tudo e ir pro Rio de Janeiro como queria o maldito?
No dia seguinte acordei com dois homens batendo na minha porta. Às cinco da manhã, acordei com o barulho da campainha. Campainha maldita, olha a hora que voltou a funcionar. Devia ter continuado quebrada. Enrolei-me no roupão e meti a cara na janela, louca para xingar um. Ainda com a vista meio embaçada, vi do outro lado do muro dois homens de estatura média, com uma pele morena desbotada e um cabelo castanho cortado de qualquer jeito que não chame a atenção. Vestidos de marrom da cabeça aos pés, gritaram ao me ver na janela:
- Arrume-se, viemos te buscar!
Entrei em pânico. Abaixei-me bruscamente e fiz o maior esforço para pensar em algo a uma hora daquelas. Mas eu não era uma pessoa produtiva pela manhã...
Esperei que fosse tudo um mal-entendido. Esperei que o subalterno dele fosse mais idiota que eu e tivesse abordado a garota errada, mas eu sabia que isso era muito improvável. Alguém que soubesse tanto da minha vida não cometeria um erro tão banal. A única coisa inaceitável era abaixar a cabeça para tudo e seguir copiosamente o plano desse tal C.
Escrevi novamente para o e-mail dele, mas a única resposta de recebi foi uma “mail delivery failed”. E agora? Seria eu obrigada mesmo a largar tudo e ir pro Rio de Janeiro como queria o maldito?
No dia seguinte acordei com dois homens batendo na minha porta. Às cinco da manhã, acordei com o barulho da campainha. Campainha maldita, olha a hora que voltou a funcionar. Devia ter continuado quebrada. Enrolei-me no roupão e meti a cara na janela, louca para xingar um. Ainda com a vista meio embaçada, vi do outro lado do muro dois homens de estatura média, com uma pele morena desbotada e um cabelo castanho cortado de qualquer jeito que não chame a atenção. Vestidos de marrom da cabeça aos pés, gritaram ao me ver na janela:
- Arrume-se, viemos te buscar!
Entrei em pânico. Abaixei-me bruscamente e fiz o maior esforço para pensar em algo a uma hora daquelas. Mas eu não era uma pessoa produtiva pela manhã...
sexta-feira, 1 de julho de 2005
Caçando calangos: primeiro capítulo I
Pai, me ensina a ser palhaço?
O sertanejo tinha esquecido de me dizer para qual e-mail mandaria as informações. Imaginei que fosse o e-mail do meu MSN, já que ele estava disponível no meu fotolog e orkut. Não era. Comecei a pensar que ele estivesse blefando. Onde ele encontraria os endereços dos meus outros e-mails? Vasculhei o meu gmail, mas fui encontrar o e-mail do calango chefe no endereço que eu só divulgava aos meus amigos. O homem tinha mesmo pesquisado sobre minha vida.
Boa noite.
Sei que você deve estar confusa a essa altura, mas espero que entenda melhor o meu propósito depois de ler esta mensagem.
Meu subalterno deve ter lhe informado do supérfluo, e para isto estou escrevendo-lhe este e-mail. Infelizmente não posso encontrá-la pessoalmente, estou atualmente morando em São Paulo. Aliás, foi aqui que conheci o autor do cordel que pedi para que te entregassem. Só depois que passei a trabalhar com construção civil pude perceber como os nordestinos que fugiram da seca vêm sofrendo física e psicologicamente. Sei que você é uma garota inteligente e vai me ajudar a combater esse problema.
Por enquanto, envio-te apenas essa MP3 anexa. A música é de um grupo chamado Cordel do Fogo Encantado e tem muito a ver com o tema que estamos discutindo.
Amanhã enviarei outra mensagem dizendo tudo que quero que você faça. Sei que depois de ouvir essa música não terá mais dúvidas quanto à sua missão.
Até a próxima,
C.
O e-mail não serviu para tirar minhas dúvidas. Aliás, só me deixou mais irritada. Eu conhecia o grupo que ele mencionou, o nome da música que ele mandou anexa era Morte e vida Stanley. Fiz o download e comecei a escutá-la enquanto pensava na merda na qual tinham me jogado. Resolvi responder o e-mail do calango chefe:
Obrigada pela música, é mesmo muito boa. No mais, não tenho o que agradecer. Eu gostaria que você parasse de brincar com a minha vida e dissesse de uma vez o que está tramando.
É engraçado você dizer que eu sou uma garota inteligente, porque o seu “subalterno” discorda piamente da sua opinião.
Atenciosamente,
Garota Calango
E esperei ansiosamente pela resposta no dia seguinte. Aliás, esse maldito mobilizou o resto da minha vida. Não me interessava por qualquer coisa na internet que não fossem meus e-mails. Não tinha mais vontade de ver meu namorado e minha cadela estava carente. O calango já estava roubando três dias da minha vida, eu tinha que dar um basta nessa situação.
Exatamente ao meio dia a resposta chegou.
Minha querida,
Não se preocupe com o que diz o meu subalterno, ele é um idiota.
Agora eu já sabia porque o homem calango tinha tanto gosto em me chamar assim.
Voltando ao que nos interessa, não imaginei que a minha intromissão fosse deixá-la possessa. Peço desculpas quanto a isso. Espero que entenda o quanto é necessária para mim. É óbvio que não a escolhi aleatoriamente. Peço desculpas novamente, por ter me intrometido tão profundamente na sua vida, imagino o desconforto que isso deve estar lhe causando.
Como prometido, irei dizer-lhe agora o que quero que faça por mim. Infelizmente, preciso dizer que isso não é um pedido. Você não está em condições de se recusar a fazer o que eu quero. Só espero que reaja melhor que o meu subalterno que conheceu. Ele foi muitíssimo mal-educado.
Em primeiro lugar, espero que tenha entendido que apenas usei o calango como metáfora. Da mesma maneira poderia ter escolhido o peba ou o urubu, mas tenho certeza de que sabe tão bem quanto eu o quanto os nascidos na parte sul do país gostam de associar a nossa imagem á de caçadores de calango vestidos de cangaceiros.
Eu preciso que você se torne uma estrela nacional. Se possível internacional. Sei o quanto adora cantar e escrever, e preciso de uma jovem paraibana para mostrar ao país e talvez até ao mundo que precisam abrir a cabeça e os olhos. Não se preocupe com a mídia, eu cuido dela. Quero apenas que vá para o Rio de Janeiro e lá receberá o resto das instruções. Creio que essa será a última vez que nos falaremos, então gostaria de agradecer de antemão o favor que fará a todos os seus conterrâneos.
E não se preocupe com meus outros subalternos, serão todos mais simpáticos que o primeiro.
Um abraço sincero do seu amigo,
C.
PS.: Adorei o codinome que adotou.
No final das contas, o e-mail dele não esclareceu muita coisa. Pareceu-me um riquinho querendo entrar na indústria da música. Mas se fosse só isso não faria sentido ter escolhido a mim. Com certeza existiriam milhares de garotas pelo mundo que cantariam melhor que eu e seriam mais bonitas também. Não que eu seja feia...
O sertanejo tinha esquecido de me dizer para qual e-mail mandaria as informações. Imaginei que fosse o e-mail do meu MSN, já que ele estava disponível no meu fotolog e orkut. Não era. Comecei a pensar que ele estivesse blefando. Onde ele encontraria os endereços dos meus outros e-mails? Vasculhei o meu gmail, mas fui encontrar o e-mail do calango chefe no endereço que eu só divulgava aos meus amigos. O homem tinha mesmo pesquisado sobre minha vida.
Boa noite.
Sei que você deve estar confusa a essa altura, mas espero que entenda melhor o meu propósito depois de ler esta mensagem.
Meu subalterno deve ter lhe informado do supérfluo, e para isto estou escrevendo-lhe este e-mail. Infelizmente não posso encontrá-la pessoalmente, estou atualmente morando em São Paulo. Aliás, foi aqui que conheci o autor do cordel que pedi para que te entregassem. Só depois que passei a trabalhar com construção civil pude perceber como os nordestinos que fugiram da seca vêm sofrendo física e psicologicamente. Sei que você é uma garota inteligente e vai me ajudar a combater esse problema.
Por enquanto, envio-te apenas essa MP3 anexa. A música é de um grupo chamado Cordel do Fogo Encantado e tem muito a ver com o tema que estamos discutindo.
Amanhã enviarei outra mensagem dizendo tudo que quero que você faça. Sei que depois de ouvir essa música não terá mais dúvidas quanto à sua missão.
Até a próxima,
C.
O e-mail não serviu para tirar minhas dúvidas. Aliás, só me deixou mais irritada. Eu conhecia o grupo que ele mencionou, o nome da música que ele mandou anexa era Morte e vida Stanley. Fiz o download e comecei a escutá-la enquanto pensava na merda na qual tinham me jogado. Resolvi responder o e-mail do calango chefe:
Obrigada pela música, é mesmo muito boa. No mais, não tenho o que agradecer. Eu gostaria que você parasse de brincar com a minha vida e dissesse de uma vez o que está tramando.
É engraçado você dizer que eu sou uma garota inteligente, porque o seu “subalterno” discorda piamente da sua opinião.
Atenciosamente,
Garota Calango
E esperei ansiosamente pela resposta no dia seguinte. Aliás, esse maldito mobilizou o resto da minha vida. Não me interessava por qualquer coisa na internet que não fossem meus e-mails. Não tinha mais vontade de ver meu namorado e minha cadela estava carente. O calango já estava roubando três dias da minha vida, eu tinha que dar um basta nessa situação.
Exatamente ao meio dia a resposta chegou.
Minha querida,
Não se preocupe com o que diz o meu subalterno, ele é um idiota.
Agora eu já sabia porque o homem calango tinha tanto gosto em me chamar assim.
Voltando ao que nos interessa, não imaginei que a minha intromissão fosse deixá-la possessa. Peço desculpas quanto a isso. Espero que entenda o quanto é necessária para mim. É óbvio que não a escolhi aleatoriamente. Peço desculpas novamente, por ter me intrometido tão profundamente na sua vida, imagino o desconforto que isso deve estar lhe causando.
Como prometido, irei dizer-lhe agora o que quero que faça por mim. Infelizmente, preciso dizer que isso não é um pedido. Você não está em condições de se recusar a fazer o que eu quero. Só espero que reaja melhor que o meu subalterno que conheceu. Ele foi muitíssimo mal-educado.
Em primeiro lugar, espero que tenha entendido que apenas usei o calango como metáfora. Da mesma maneira poderia ter escolhido o peba ou o urubu, mas tenho certeza de que sabe tão bem quanto eu o quanto os nascidos na parte sul do país gostam de associar a nossa imagem á de caçadores de calango vestidos de cangaceiros.
Eu preciso que você se torne uma estrela nacional. Se possível internacional. Sei o quanto adora cantar e escrever, e preciso de uma jovem paraibana para mostrar ao país e talvez até ao mundo que precisam abrir a cabeça e os olhos. Não se preocupe com a mídia, eu cuido dela. Quero apenas que vá para o Rio de Janeiro e lá receberá o resto das instruções. Creio que essa será a última vez que nos falaremos, então gostaria de agradecer de antemão o favor que fará a todos os seus conterrâneos.
E não se preocupe com meus outros subalternos, serão todos mais simpáticos que o primeiro.
Um abraço sincero do seu amigo,
C.
PS.: Adorei o codinome que adotou.
No final das contas, o e-mail dele não esclareceu muita coisa. Pareceu-me um riquinho querendo entrar na indústria da música. Mas se fosse só isso não faria sentido ter escolhido a mim. Com certeza existiriam milhares de garotas pelo mundo que cantariam melhor que eu e seriam mais bonitas também. Não que eu seja feia...
quinta-feira, 30 de junho de 2005
Caçando calangos III
Assim que cheguei ao local exato do primeiro encontro ouvi um barulho de carroça se aproximando por trás de mim. Não tive coragem de me virar, mas prestei atenção nos movimentos do homem misterioso, descendo do carro e chegando cada vez mais perto, até ficar do meu lado. Pensei em cumprimentá-lo, mas depois lembrei que não faria diferença.
- Leu?
- Li sim. Por que você me deu isso?
- Isso você vai saber no tempo certo.
- Tempo certo?
- Pare de fazer perguntas e me escute.
Eu calei a boca e esperei que ele começasse a falar. Esperei muito. Comecei a desconfiar da rapidez do pensamento dele. Virei o rosto para poder vê-lo melhor e percebi que tinha marcas de sol e do boné. Talvez o excesso de sol na cuca tenha danificado a capacidade de raciocínio do homem.
- Você concorda com o que o poema diz?
- Não. Por que você deu este poema a mim? Eu nem gosto de ler poemas.
- Isso não vem ao caso.
- O que espera de mim? Que eu analise o texto? Olha, eu faço Letras, mas não sou a pessoa mais indicada para isso, se quiser posso te indicar algum colega meu...
- Cala a boca e escuta.
Suspeitei que ele me obrigasse a ouvir o silêncio dele novamente, mas começou a falar logo em seguida:
- Você não concorda com o poema, então? Você não acha que o nordestino é injustiçado no sul e no sudeste?
- Olha, se você quer discutir política comigo poderia ao menos escolher um lugar menos perigoso.
- Eu não quero discutir política com você. Quero que você me ajude.
- Eu? Por que eu? Eu sou tãaaaao egoísta...
- Não é não.
- Desde quando você me conhece melhor que eu mesma?
- Desde que eu passei a pesquisar a sua vida.
- Você tem me perseguido? Eu vou ser seqüestrada?
- Não, idiota.
Fazia muito tempo que alguém não me chamava de idiota. Isso doeu.
- Você tem que me ajudar a levar o calango pro sul.
- Se eu sou idiota, você é doente.
- Você é idiota e não me conhece. Eu te conheço.
- Pra que você quer a ajuda de uma idiota, então?
- Para que você se comunique com os outros idiotas.
- Cara, eu te odeio tanto... – ele ignorou o meu comentário e continuou a falar no mesmo tom de sempre.
- Eu vou te mandar pra lá e você vai ser a encarregada do calango.
- Encarregada do calango? – não consegui conter o riso – Onde eu estou? Em algum fanzine de terceira?
- Idiota. Volte para casa agora. Você vai receber um e-mail com todas as informações que precisa.
- Você pode ao menos me dar uma carona na sua carroça? Já está tarde, fica meio perigoso voltar sozinha.
- Não.
- Leu?
- Li sim. Por que você me deu isso?
- Isso você vai saber no tempo certo.
- Tempo certo?
- Pare de fazer perguntas e me escute.
Eu calei a boca e esperei que ele começasse a falar. Esperei muito. Comecei a desconfiar da rapidez do pensamento dele. Virei o rosto para poder vê-lo melhor e percebi que tinha marcas de sol e do boné. Talvez o excesso de sol na cuca tenha danificado a capacidade de raciocínio do homem.
- Você concorda com o que o poema diz?
- Não. Por que você deu este poema a mim? Eu nem gosto de ler poemas.
- Isso não vem ao caso.
- O que espera de mim? Que eu analise o texto? Olha, eu faço Letras, mas não sou a pessoa mais indicada para isso, se quiser posso te indicar algum colega meu...
- Cala a boca e escuta.
Suspeitei que ele me obrigasse a ouvir o silêncio dele novamente, mas começou a falar logo em seguida:
- Você não concorda com o poema, então? Você não acha que o nordestino é injustiçado no sul e no sudeste?
- Olha, se você quer discutir política comigo poderia ao menos escolher um lugar menos perigoso.
- Eu não quero discutir política com você. Quero que você me ajude.
- Eu? Por que eu? Eu sou tãaaaao egoísta...
- Não é não.
- Desde quando você me conhece melhor que eu mesma?
- Desde que eu passei a pesquisar a sua vida.
- Você tem me perseguido? Eu vou ser seqüestrada?
- Não, idiota.
Fazia muito tempo que alguém não me chamava de idiota. Isso doeu.
- Você tem que me ajudar a levar o calango pro sul.
- Se eu sou idiota, você é doente.
- Você é idiota e não me conhece. Eu te conheço.
- Pra que você quer a ajuda de uma idiota, então?
- Para que você se comunique com os outros idiotas.
- Cara, eu te odeio tanto... – ele ignorou o meu comentário e continuou a falar no mesmo tom de sempre.
- Eu vou te mandar pra lá e você vai ser a encarregada do calango.
- Encarregada do calango? – não consegui conter o riso – Onde eu estou? Em algum fanzine de terceira?
- Idiota. Volte para casa agora. Você vai receber um e-mail com todas as informações que precisa.
- Você pode ao menos me dar uma carona na sua carroça? Já está tarde, fica meio perigoso voltar sozinha.
- Não.
terça-feira, 28 de junho de 2005
Caçando calangos II
No dia seguinte, eu refiz o mesmo trajeto para encontrar o sertanejo misterioso, mas, obviamente, o mundo não era o mesmo. Descendo a Epitácio Pessoa encontrei uma cobra atropelada, fato, para mim, muitíssimo assustador.
Lembro-me da minha infância, quando meu pai me contava dos amigos dele na Inglaterra que perguntavam a ele se caçávamos cobras aqui no Brasil. Eu e meu pai sempre ríamos dessa história, considerando-a absurda. Ao ver aquela cobra espragatada no asfalto senti como se todos os ingleses rissem de mim. A sensação de angústia remeteu-me novamente à lembrança do homem da cabeça chata e do seu cordel. Seus primeiros versos diziam:
Neste grande mundo cão
Quem não é grã-fino sofre
Do diabo come o pão
De centavo pinga o cofre
É difícil ter um irmão
Que não seja do enxofre
Quem quer melhorar de vida
Quer dar o melhor pra família
Desce pra terra querida
Sem dinheiro nem mobília
Espera que sua ida
Seja aquela maravilha
É no sul que nordestino
Dá-se conta da verdade
Norte velho ou sul menino
Pobre sofre a eternidade
Os moleque sempre fino
Buxo d’água não se evade
Melhor era no nordeste
Onde era tudo irmão
Calango matava fome
Calango era a salvação
Mas a infelicidade consome
Sertanejo no sudeste
Como uma jovem que sempre morou em uma capital litorânea do nordeste, aqueles versos me irritaram profundamente. Tive a impressão de que haviam sido feitos por algum jornalista da Globo. Mas por que aquele homem teria me entregado aquele folheto? Comecei a desconfiar que ele quisesse a minha participação em algum grupo militante.
Lembro-me da minha infância, quando meu pai me contava dos amigos dele na Inglaterra que perguntavam a ele se caçávamos cobras aqui no Brasil. Eu e meu pai sempre ríamos dessa história, considerando-a absurda. Ao ver aquela cobra espragatada no asfalto senti como se todos os ingleses rissem de mim. A sensação de angústia remeteu-me novamente à lembrança do homem da cabeça chata e do seu cordel. Seus primeiros versos diziam:
Neste grande mundo cão
Quem não é grã-fino sofre
Do diabo come o pão
De centavo pinga o cofre
É difícil ter um irmão
Que não seja do enxofre
Quem quer melhorar de vida
Quer dar o melhor pra família
Desce pra terra querida
Sem dinheiro nem mobília
Espera que sua ida
Seja aquela maravilha
É no sul que nordestino
Dá-se conta da verdade
Norte velho ou sul menino
Pobre sofre a eternidade
Os moleque sempre fino
Buxo d’água não se evade
Melhor era no nordeste
Onde era tudo irmão
Calango matava fome
Calango era a salvação
Mas a infelicidade consome
Sertanejo no sudeste
Como uma jovem que sempre morou em uma capital litorânea do nordeste, aqueles versos me irritaram profundamente. Tive a impressão de que haviam sido feitos por algum jornalista da Globo. Mas por que aquele homem teria me entregado aquele folheto? Comecei a desconfiar que ele quisesse a minha participação em algum grupo militante.
domingo, 26 de junho de 2005
Caçando calangos
Eu estava sóbria quando ele me apareceu. Devia ter cerca de um metro e sessenta de "altura", cabeça chata (provavelmente de ter carregado muita lata d'água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Mariiiiiiiia...) pele morena queimada do sol e um olhar desconcertante. Eu estava descendo a Epitácio Pessoa às nove da noite, preocupada e com medo de que saísse algum meliante das matas do rio Jaguaribe quando ele me apareceu. Acho que melei minha calcinha de cocô quando essa figura parou na minha frente, mas com medo da reação dele ao farejar meu medo, fiz o possível para cumprimentá-lo normalmente. Ele não só ignorou a minha rara demonstração de educação como falou da maneira mais seca e grossa possível. Aí eu tive certeza de que estava melada.
O sertanejo entregou-me um folheto de cordel com a xilogravura de um calango na capa. Pelo menos eu achei que fosse um calango. Nunca tive muita certeza da diferença entre calango, lagartixa e víbora. Acho que nunca tinha visto um calango. A única coisa que ele me disse foi que voltasse para casa, lesse aquele folheto e voltasse no dia seguinte para aquele mesmo ponto da avenida, no mesmo horário para encontrá-lo.
Foi aí que minha curiosidade superou o meu medo.
O sertanejo entregou-me um folheto de cordel com a xilogravura de um calango na capa. Pelo menos eu achei que fosse um calango. Nunca tive muita certeza da diferença entre calango, lagartixa e víbora. Acho que nunca tinha visto um calango. A única coisa que ele me disse foi que voltasse para casa, lesse aquele folheto e voltasse no dia seguinte para aquele mesmo ponto da avenida, no mesmo horário para encontrá-lo.
Foi aí que minha curiosidade superou o meu medo.
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