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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Até a última ponta

Tá tudo muito louco ou eu é que tô muito louco?

Estou monotemática. É o que tenho repetido há dois dias. Novembro de 2025 e eu fui ao show da turnê que marca o encerramento do Planet Hemp, banda criada em 1993 no Rio de Janeiro por Marcelo D2 e Skunk, que contou ainda com Rafael Crespo, Bacalhau e Formigão na sua formação inicial. Eu gostaria de discorrer minuciosamente sobre o que vi no show, mas esse texto ficaria enorme. Foi tudo muito rico e cuidadosamente produzido. À altura da história e importância da banda. É provável que outras pessoas, inclusive mais qualificadas do que eu para isso, já o tenham feito. Estou aqui para falar de história e sentimentos. Então vamos em frente com esse pequeno esclarecimento feito: o show "A Última Ponta" é foda. Mas nos próximos parágrafos vocês verão que talvez eu não seja uma narradora muito confiável.

Minha história com a banda começa uns 30 anos antes, ainda no início da carreira deles, e eu nem sabia. Mas vamos deixar isso para mais adiante. Em 1997 seus integrantes foram presos, acusados de fazerem apologia às drogas e como um efeito Barbara Streisand, se tornaram ainda mais conhecidos nacionalmente. Provavelmente foi nessa época que eu soube quem eram. Comecei a ouvir, gostar muito do que ouvia e por volta do ano 2000, quando eu tinha meus 15 anos, aconteceu um dos fins de semana mais marcantes da minha adolescência. 

O Cabo Branco, clube social e esportivo fundado em 1915 e localizado no Miramar, bairro onde morei a vida inteira, recebeu Charlie Brown Jr. na sexta-feira e Planet Hemp no sábado, duas das bandas mais ouvidas entre os meus amigos. Na sexta estava quase todo mundo que eu conhecia. Devo dizer que aproveitamos bem da liberdade que ainda existia (não oficialmente) para adolescentes naquela época. Mas no sábado, menores de idade frequentando show de banda que falava de maconha? Aí era para poucos que tinham a sorte de vir de um lar com valores diferentes dos defendidos pela "família tradicional brasileira". Ou para os rebeldes, que davam seu jeito de ir de qualquer jeito.

Os shows aconteceram numa quadra de futsal/vôlei/basquete e houve um momento que ficou vividamente marcado na minha memória. Quando tocou a primeira música, uma das preferidas do público, que explode no refrão ao ser cantado "D2! Mas mantenha o respeito!", eu estava lá, bem na frente, no meio de homens bem maiores do que eu. Começamos, todos nós, a pular e eu, logo caí lá no meio de todos eles, que prontamente me ajudaram a levantar, mas foi o suficiente para me encher de medo de estar em ambientes onde a dança fosse um pouco mais agressiva (o que é diferente de violenta).

Continuei curtindo, só um pouco mais acanhada, lá atrás. Mas não era um ambiente muito grande então dava pra ver e ouvir muito bem de qualquer lugar. Foi um ótimo show, gostei muito de ter ido. Mas esse momento me marcou e, mesmo frequentadora de inúmeros shows de punk rock, nunca tive coragem de entrar numa roda de pogo. Queria, mas não ousava. Minhas amigas iam e eu ficava. Tinha medo de cair. Nunca mais assisti a um show do Planet Hemp em João Pessoa, a cidade nunca foi rota de grandes shows. E aí a banda encerrou as atividades.

Em conversas com a família e amigos, de vez em quando lembramos do meu irmão, Rodrigo Rocha, falecido em agosto de 1996 aos 26 anos, e dos trabalhos que realizou em seu curto período de vida. Ele era muito ligado à música (seu TCC do curso de Comunicação foi o documentário "Rock em João Pessoa") e além da coluna "Canal Zero", onde escrevia sobre música para o jornal O Norte, também produziu shows no bar Portal das Cores, entre eles várias bandas do movimento manguebeat e o Planet Hemp.

Ao me contarem essa história, disseram que não conseguiram hospedar a banda em nenhum hotel porque eles tinham acabado de ser presos e nenhum estabelecimento queria recebê-los, mas ao ver a cronologia dos fatos percebo que as informações devem ter se misturado com o tempo. O fato é que, no fim das contas, a banda se hospedou à beira-mar numa casa de amigos e até a minha mãe trabalhou nesse evento, ficando responsável pela bilheteria. Eu, infelizmente, com 10 ou menos anos, não participei da festa.

Em 2022, o álbum "Jardineiros" é lançado. Maravilhosamente fiel a tudo que foi feito anteriormente, atual como sempre. E em 2025, "A Última Ponta". Dessa vez a banda ia acabar mesmo, com direito a turnê de despedida e tudo mais. Combinei com um casal de amigos e compramos os ingressos. Era a nossa última chance, não dava pra perder. Mas a poucos dias, um anúncio: o show seria adiado. A gente ainda teria que esperar mais.

E enfim, chegou o dia 8 de novembro. Viajamos de João Pessoa a Recife, nos hospedamos em Olinda e chegamos cedinho no Classic Hall, a tempo de assistir Nação Zumbi com seu show de comemoração dos 30 anos do álbum "Da lama aos caos" desde o início. Nesse meio tempo entre uma data e outra entrei em contato com Daniel Ganjaman, produtor musical, integrante do Planet Hemp e ouvinte do MIDCast (podcast sobre política nacional do qual eu participo). Aproveitei da minha microinfluência como subcelebridade da internet para conhecer alguém que admiro? Sim. Conversamos rapidamente, pois eles estavam na correria do show, e o presenteei com um boné com a ilustração que fiz do trecho de uma música de Rage Against The Machine: I'm calm like a bomb. E quando começou o show, não é que ele estava usando o boné? Vixe, eu fiquei feliz demais.

Estava todo mundo ansioso, doido pra descarregar completamente as energias durante as próximas horas. Nos primeiros acordes já tinha gente pulando e formando roda, entramos logo nela. Mas eu, entrei numa roda? Em 2023 eu comecei a malhar. Em 2024 conheci o carnaval de Salvador, suas pipocas e entrei nas rodas do Navio Pirata com Baiana System e ainda no final do mesmo ano entrei na roda de pogo de um pequeno show de punk rock em João Pessoa. Esse foi o caminho que percorri, muitos anos depois de finda a minha adolescência. Caminhos abertos para que eu pudesse aproveitar essa despedida como merecia.

O show inteiro foi impecável e terminou no seu ápice, ironicamente, com a mesma música que iniciou a apresentação no Clube Cabo Branco: "Mantenha o respeito". Não sei se era eu, se era a roda, acho que os dois, mas parece que a gente queria aproveitar aqueles últimos minutos como o que realmente eram: os últimos. Depois disso acabou. Então corremos como se pudéssemos nos agarrar ao tempo, em uma roda tão veloz que a gente se sentiu voar. Vinte e cinco anos depois, não tinha quem me derrubasse. Talvez apenas a saudade.

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A bunda da Mulher-Aranha

Milo Manara
Já fui admiradora do Milo Manara. Li poucas coisas dele (todas emprestadas pelo Samuel, que sempre foi o amigo que mais me apresentou livros e quadrinhos), mas sempre ficava impressionada com a arte caprichada, as belas mulheres e suas aquarelas perfeitas. Arte erótica nunca me causou aversão e tenho alguns exemplares nessa temática, como o quadrinho da Giovanna Casotto; o problema da capa da Mulher-Aranha não é uma questão de moralidade.

Em primeiro lugar temos que ter em mente que Manara não é o Deus dos Quadrinhos e é passível de crítica sim. E as críticas feitas à capa em questão são contundentes: a Mulher-Aranha ficou com pescoço de Mulher-Lagartixa; o uniforme tá meio Globeleza, parecendo que foi pintado no corpo; a imagem enfatiza demasiado a bunda da personagem, que teve a minha compaixão por ter que que usar essa roupa atochada (primeira vez que vejo uniforme fio-dental) e ela está igual a todas a mulheres que ele desenha, corpos esculturais, lábios carnudos e uma sugestão de nariz.

Corey Lewis
Sabemos que grande parte dos autores e executivos do mundo dos comics estão cagando para a opinião feminina, delimitam seu  público alvo como homens jovens cis sem vida sexual ativa e alguns ainda creem que quadrinho não é coisa de menina. Mas apesar disso, existem mulheres leitoras dentro desse universo (confesso que não sou uma delas, é uma área dos quadrinhos que nunca me tentou) e adivinhem só, elas têm o direito de reclamar. As mulheres não estão "estragando" os quadrinhos, como alguns gostam de falar, mas estão lutando para transformar uma arte que admiram em um ambiente menos misógino.

Uma palavra importante dentro do feminismo é "representatividade". Enquanto a única característica importante para a maioria das mulheres retratadas nos  comics for sua sexualidade, existirão leitoras e autoras cobrando personagens fortes e menos sexualizadas. Teoricamente, os quadrinhos de super-herois têm como público alvo os homens e os quadrinhos das heroínas têm as mulheres, mas que mensagem os estúdios nos passam quando nos mostram que as características que merecem destaque nas personagens femininas são suas nádegas e seios, com constantes poses a la Escher e uniformes dignos dos desfiles das escolas de samba?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Porque eu desisti do futebol


Ao contrário do que pensa o senso comum, mulher gosta de futebol sim. Não por causa das pernas do jogadores, mas porque gosta de jogar, assistir ou mesmo xingar o juiz enquanto toma uma cerveja na frente da televisão. Mas enquanto de um lado o estímulo existe desde antes mesmo de se começar a andar, do outro é mais comum o desestímulo diante de qualquer demonstração de interesse, porque afinal, "não é coisa de/pra mulher". Claro que esse texto é um reflexo do acontecido recentemente a Fernanda Colombo diante de um erro de arbitragem, mas minha história de decepção com esse esporte começou ainda na infância.

Como a maioria das crianças, eu gostava de me movimentar, praticar esportes e entre eles, o futebol. Quando tinha cerca de onze anos, junto com minhas colegas de sala, solicitamos à escola a criação de uma escolinha para meninas. Mas por que simplesmente não nos juntamos à turma dos meninos? Porque ao contrário deles, nós não tínhamos sido incentivadas a praticar o esporte desde sempre, nós resolvemos, àquela altura do campeonato, começar, enquanto os meninos já nos driblavam só em pensamento.

No início foi tudo lindo. Nós adorávamos a escolinha e adorávamos praticar o esporte. Nos divertíamos sendo meninas jogando futebol, sem intimidações, sem dribles vexatórios, sem (grandes) boladas. Entretanto, suponho que manter uma turma só com cinco meninas não era negócio pra escola, então resolveram nos juntar a uma turma de meninos mais novos. O que não significa que o nível deles fosse semelhante ao nosso, o que aos poucos foi resultando no nosso desinteresse, com os dribles e as lembranças constantes dos nossos colegas de que futebol não era coisa de menina.

Não que para praticar o esporte seja imprescindível um cromossomo Y ou uma benga entre as pernas, mas porque qualquer mulher que ouse entrar nesse meio corre o risco de passar por um corredor polonês de humilhações. Em qualquer esporte (ou na maioria deles), é comum pensar na categoria feminina como "secundária", supondo que a mulher, sexo frágil, não possa competir com um homem, muito menos superá-lo. Entretanto, no "país do futebol", é nesse esporte que a disparidade é maior. Enquanto jogadores muitas vezes recebem cifras milionárias, as jogadoras sequer aparecem na televisão (exceto nas Olimpíadas) e pouco ou nada se fala sobre o futebol feminino, mesmo depois da Marta.

Resta às mulheres trabalharem nesse esporte na arbitragem, mas não sem antes terem sua capacidade e competência seriamente postas em xeque unicamente por causa de seu gênero. Erros de arbitragem são comuns no futebol, diria até que são corriqueiros. Mas se o erro for cometido por uma mulher, torna-se um pecado capital imperdoável e quando não nos mandam lavar a louça, mandam posar pra Playboy.

Só fui a um estádio uma vez na vida, num jogo entre Vasco e Campinense em Campina Grande. Em um dado momento, antes mesmo de começar o jogo, três mulheres passaram na frente das arquibancadas, o que foi suficiente para insuflar atitudes simiescas dos homens do lugar, que acharam de bom grado insultá-las e ridicularizá-las apenas por serem mulheres transitando em um estádio de futebol. Claro que o meu desinteresse no esporte também tem a ver com o fato de grande parte dos jogadores terem mais afinco em simular faltas do que em jogar propriamente, assim como os desvios relacionados, a violência e o preconceito não só contra as mulheres, mas também contra os homossexuais. Se o Brasil é o país do futebol, o futebol é o esporte da intolerância.

sábado, 12 de abril de 2014

Parir sorrindo

Desde que eu soube do caso da Adelir uma inquietação tomou conta de mim, eu precisava falar algo. Vi pessoas chamando-a de egoísta e aplaudindo a ação da juíza e das obstetras responsáveis pela cesárea compulsória. Não vou pedir de ninguém empatia por uma mãe levada em pleno trabalho de parto para o hospital para ser cortada contra a sua vontade, mas vou mostrar algumas informações que, desde que engravidei há sete anos, me levaram à conclusão de que um parto normal e humanizado é o melhor para a mãe e para o bebê.

O primeiro contato que tive com o assunto foi através do livro "Nascer sorrindo", do obstetra francês Frédérick Leboyer:
O livro 'Nascer sorrindo', do Dr. Leboyer, um obstetra francês que usa técnicas inovadoras no parto, defende que, como a criança está envolta por líquido, que abafa o som e a mantém no escuro durante toda a gestação, quentinha, aconchegada, o momento do parto é extremamente traumático para ela. De repente, luz, barulho, frio. Esse choque afeta a pessoa deixando seqüelas irreparáveis em sua personalidade. Por isso ele mantém as salas de parto na penumbra e silêncio. A criança é, depois de 'expulsa', imediatamente envolta de modo a manter-lhe o calor e sua adaptação ao meio externo é feita gradual e lentamente. Depois de alguns meses de aplicação da técnica, foi convocada uma reunião para avaliar os resultados e chegou-se à conclusão de que os bebês nasciam sorrindo, pois o parto se dá sem violência.
A partir daí, comecei a pesquisar sobre o assunto, no Google, no Orkut. Eu também queria que a minha filha nascesse sorrindo. Conheci grupos de discussão sobre obstetrícia baseada em evidências científicas e cada vez mais, vi a importância de me manter firme na minha decisão de ter um parto humanizado. Eu tinha pensado em fazer um texto minucioso, explicando todo o cenário dos partos realizados no Brasil, mas felizmente li o texto da Thalita Pires antes, que explica a situação muito melhor do que eu o faria. Essa é a leitura essencial para compreender o assunto.

Entretanto, gostaria de acrescentar algumas informações:

  • A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que o total de partos cesáreos em relação ao número total de partos realizados em um serviço de saúde seja de 15%. Esta determinação está fundamentada no preceito de que apenas 15% do total de partos apresentam indicação precisa de cesariana, ou seja, existe uma situação real onde é fundamental para preservação da saúde materna e/ou fetal que aquele procedimento seja realizado cirurgicamente e não por via natural (OMS, 1996).¹

  • Dados do estudo podem revelar uma estreita relação entre o aumento da prematuridade e a realização de cesarianas. As mais altas taxas são observadas nas regiões mais desenvolvidas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, enquanto as mais baixas estão nas regiões Norte e Nordeste. Entretanto, para estabelecer essa relação com mais exatidão são necessários estudos mais aprofundados. O Brasil apresenta as mais altas taxas de cesarianas no mundo. Sua frequência aumentou de 37.8% de todos os partos em 2000 para 52.3% em 2010. [...] Para o representante do UNICEF no Brasil, Gary Stahl, o estudo reforça a urgência de esclarecer a relação de causa e efeito entre cesariana e prematuridade. “Isso contribuiria para reduzir a epidemia de cesarianas no Brasil e reverter o quadro de prematuridade.”²

  • Cerca de 70% das mulheres dizem querer parto normal quando estão no início da gravidez, segundo pesquisa do Ministério da Saúde. Entretanto, no fim da gestação, cerca de 80% das mulheres que têm planos de saúde acabam fazendo cesariana. Entre as gestantes do Sistema Único de Saúde (SUS), o número de cesarianas é de 26%.³

  • Os partos por cesariana podem influenciar a taxa de mortalidade entre mães e bebês. A cesárea é uma cirurgia, com todos os riscos de uma intervenção desse tipo e representa uma chance seis vezes maior de a mulher morrer do que com o parto é normal. A cesariana também aumenta a possibilidade de a parturiente contrair uma infecção ou sofrer uma hemorragia. Para os bebês, o risco de eles terem que ir para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) quadruplica. No caso dos nascidos de parto normal, esse índice é de 3% e pula para 12% entre os nascidos por cesariana. Segundo médicos, o trabalho de parto exerce papel fundamental para o desenvolvimento dos pulmões das crianças. As contrações liberam substâncias que ajudam na maturação do pulmão do bebê e estimulam os movimentos de sucção, o que melhora qualidade da amamentação. Como, na maioria das vezes, a data das cesarianas é fixada levando em consideração apenas a conveniência do médico e da mãe, independentemente do início do trabalho de parto, muitas crianças nascem sem estar totalmente prontas, sem os pulmões plenamente capacitados.4

  • Não tenho como convencer a todos que o parto humanizado seja na maioria dos casos a melhor opção, mas é leviano não reconhecer que o sistema obstétrico do Brasil precisa urgentemente de uma grande reforma.

    ¹ Agência Nacional de Saúde Suplementar

    quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

    O silêncio das inocentes


    Esta semana produzi uma tira sobre um fato que ocorreu comigo na infância e me marcou profundamente. Como ocorre com a maioria das mulheres no Brasil (quiçá no mundo), fui abordada por estranhos na rua que acharam oportuno me mostrar seu pênis (usei o termo “pau” na tira, mas acharam engraçado, então para ninguém se confundir quanto ao teor do texto, preferi recorrer ao termo científico). Na segunda vez em que isso ocorreu eu tinha cerca de 11 anos, mas na primeira eu sequer lembro que idade tinha.

    Por ser um assunto delicado, muitas pessoas preferem não falar a respeito, mas ao ler a tira, várias outras mulheres comentaram que o mesmo havia ocorrido com elas, um estranho no ônibus ou mesmo um colega da escola. Segundo a pesquisa feita no site thinkolga.com, de 7.762 mulheres, 99,6% responderam que já foram assediadas sexualmente. Dentre outras estatísticas, 90% das mulheres responderam que já trocaram de roupa pensando no lugar onde iriam por medo de assédio, 82% foram agarradas na balada e 68% já foram xingadas por dizer não à cantada de alguém.

    Se esse é um fato tão comum, por que é tão pouco discutido? Porque é subestimado. Em um grupo de discussão me apresentaram o termo gaslighting, oriundo do filme À Meia Luz (Gaslight, 1944), de George Cuckor, onde o marido de Paula Alquist (Ingrid Bergman) tenta convencer a ela e aos demais que sua mulher está louca. Segundo o Wikipédia, “gaslighting é uma forma de violência psicológica na qual uma falsa informação é apresentada na intenção de fazer a vítima duvidar da própria memória, percepção e sanidade”. Dadas as devidas proporções, a maior parte das mulheres se sente violada quando sofre qualquer forma de assédio sexual, mas acaba se convencendo (ou sendo convencida) de que está exagerando e no fim das contas, felizmente não aconteceu nada mais sério.

    Se você duvida, mostre esse texto a um número considerável de pessoas e veja quantas consideram que estou exagerando, quantas acham que eu preciso de um tanque de roupa suja pra lavar e quantas acham que eu sou “malcomida”. Isso só pra mencionar os termos mais comuns quando qualquer tentativa de se fazer mostrar uma situação incômoda para as mulheres ocorre. Mas enquanto acham que eu estou exagerando, esse tipo de situação tem ocorrido com bastante frequência ao longo da vida das suas mães, irmãs e namoradas. E isso as traumatiza. Eu deixei de andar de bicicleta, mas a Joana deixou de andar de ônibus, a Clarice deixou de usar saias e a Denise não consegue mais confiar nos homens.

    domingo, 8 de dezembro de 2013

    O vagão rosa da Folha

    Antes de mais nada, gostaria de deixar claro de que me agradou saber que a Folha está trazendo cinco mulheres para integrar seu time de quadrinistas. Entretanto, foi inevitável perceber que em todos os outros dias da semana ocupam este espaço dez homens e Laerte (que não se prende a essas bobagens de gênero). Aí lembrei do Salão de Humor de Piracicaba, que criou a exposição Batom, Lápis e TPM para receber a produção feminina, mas neste ano, pelo que vi nos nomes selecionados, não tinha nenhuma representante brasileira no Salão principal. Será que as cartunistas são piores que os cartunistas ou apenas menos conhecidas? Até quando teremos que recorrer ao vagão rosa?

    Não me entendam mal, não sou contra o fato de serem criados espaços exclusivos para mostrar a produção feminina, que de outra maneira não está aparecendo, pelo contrário. Faço parte do grupo responsável pela Inverna, uma revista criada para mostrar uma fatia da produção feminina de quadrinhos no Brasil. E sei que essa "reclamação" pode parecer contraditória. Sou aquela pessoa pessoa chata que no meio da mesa redonda pergunta ao editor por que ele não publica mais mulheres. Não porque eu acho que ele tem que ser bonzinho e deixar uma mulher ocupar uma vaga, de forma alguma. Não falo em cotas. Mas, para ele se questionar por que, se Maria é tão boa quanto José ou Jeová, ele escolhe José, Jeová, mas não Maria. Nós não queremos que sejam criadas mesas para falar como são os quadrinhos feitos por mulheres, queremos que numa mesa sobre a problemática da metafísica nos quadrinhos existam mulheres participando, para que não seja necessário perguntar a um homem por que não há mais mulheres fazendo quadrinhos.

    Agora é inevitável falar mais uma vez sobre o FIQ. A maior parte da produção de quadrinhos lá exposta era produzida por homens? Sim. A produção feminina era inexpressiva? Não. E como eu sou otimista, diria até que cresce numa progressão geométrica entre as edições do evento. O número menor de quadrinistas se dá, provavelmente, porque as mulheres foram ignoradas durante muito tempo como público ("mulher não gosta de quadrinhos") e como autoras ("não gosto de quadrinhos feitos por mulheres"). Embora os espaços criados para expor os trabalhos femininos sejam muito bem-vindos, não queremos passar o resto da vida dependendo do vagão rosa.

    As imagens utilizadas aqui foram retiradas do texto "20 conselhos para artistas femininas de artistas femininas", no site Lady's Comics.

    terça-feira, 3 de dezembro de 2013

    Perdi a virgindade no FIQ

    Lauro Perazzo, eu e Samuel de Gois

    Desde que voltei de Belo Horizonte já vi milhares de relatos sobre o 8º Festival Internacional de Quadrinhos e sempre volta aquela saudade boa. Você sai do FIQ, mas ele demora a sair de você. Primeiro por causa da grande quantidade de quadrinhos que a maioria traz na bagagem (acho que só li metade até agora) e segundo, pela grande quantidade de experiências adquiridas. Eu até poderia mencionar todas as pessoas que adorei conhecer e rever, mas tenho medo de acabar esquecendo de alguém e detesto injustiças. Mas enfim, fiquei com inveja de todo mundo que falou do evento e resolvi falar também. Principalmente porque ao contrário de todos os relatos que li e ouvi pela internet, eu perdi a virgindade no FIQ.

    Todo mundo que fala sobre o FIQ o compara com a edição anterior: as melhorias, as vendas, a quantidade de pessoas presentes. Na época da sétima edição estávamos com o Coletivo WC com pouco mais de um ano e providenciamos um zine xerocado de poucas páginas. Dois integrantes do grupo foram para o evento e distribuíram gratuitamente os escassos cem exemplares produzidos para a ocasião. Ao retornar do evento, meu amigo Samuel não cansava de discorrer sobre as maravilhas do FIQ e falei pra mim mesma que o próximo evento de escala nacional de quadrinhos que surgisse eu faria o possível para participar.

    eu, Samuel e Henrique Magalhães
    Dois anos depois, tínhamos lançado uma segunda edição do zine do Coletivo WC e duas edições da nossa revista, a Sanitário. E lá estava eu. Conhecendo pessoas que eu nunca conheceria e recebendo feedbacks do pessoal que já acompanhava o meu trabalho, reencontrando os amigos de João Pessoa que estão morando longe... Tudo isso já valeria a pena. Mas uma das maiores vantagens de ter ido a esta edição do FIQ foi a de romper as barreiras geográficas e ver outras pessoas próximas a mim fazendo o mesmo.

    Se na edição anterior foram dois ou três paraibanos, em alguns momentos deste ano me vi rodeada por pessoas daqui. Vi Shiko participar do painel MSP, Henrique Magalhães presente para a rodada de negócios, Samuel voltar para Manaus com todas as revistas vendidas, fora o pessoal que estava cobrindo o evento ou como eu, passeando, tentando trocar quadrinhos, tomando cerveja ou dormindo no fundão do auditório. Quando conhecemos o Andrício de Souza ele comentou que achamos que conhecemos a todos por causa da internet, mas não dá, o gargalo é estreito. Tem muita gente nesse país continental fazendo quadrinhos, talvez rodeados de outros quadrinistas, talvez não. E essas pessoas (independentemente da qualidade do trabalho) se tornam invisíveis, porque enfim, se não são conhecidas de A, B, C, D e E, acabam não existindo.

    Mas é aí que o evento entra. Se você tem um bom trabalho, jogo de cintura pra vender seu peixe (definitivamente não é o meu caso), está em uma mesa ou um stand (também não foi o meu caso), conversa com as pessoas ao seu redor (isso eu fiz mais ou menos) e vai atrás de conhecer os trabalhos de outros autores, são grandes as chances de alguém falar "Thaïs? Acho que sei quem é, uma loira de óculos, né?" (no meu caso, não sei das suas características físicas). Na verdade eu provavelmente voltei do evento quase tão desconhecida quanto fui, mas aprendi muita, muita coisa.
    não tô bem, mas tô na foto, com Samuel, Ricardo Jaime, Lauro e Shiko

    Creio que seja de praxe fazer (quase) tudo errado da primeira vez que se vai ao FIQ. Logo no primeiro dia e fiquei dolorida pelo evento inteiro por causa do peso que carreguei, não consegui trocar nenhuma revista, não peguei mesa, não vendi quase nada, não produzi um material solo (com exceção do curtíssimo zine da Olga) e achei que conseguiria comprar cachaça (não bebo mais cerveja) lá dentro só porque eu estava em Minas Gerais. Mas aprendi muita coisa pra quem sabe, daqui a dois anos eu fazer tudo certo.