quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mocinhos e vilões

Eu estava sentada em um banquinho ao lado de um restaurante, escrevendo na minha agenda, quando chegou perto de mim uma senhora baixinha, gordinha, de olhinhos puxados, com uma expressão de imensa tristeza. Sorri, mas ela, tremendo-se toda tirou um revólver da bolsa e apontou para mim. Eu fiquei tensa e implorei para que ela não levasse a minha bolsa, porque tinha os meus documentos, coisas que eram importantes para mim, se quisesse eu daria apenas o dinheiro. Ela olhou para mim e perguntou se a minha caneta ainda tinha tinta e eu mostrei que ainda estava na metade. A senhora pegou a caneta e seguiu em frente.
Logo em seguida um carro estaciona bem na minha frente e vários orientais saem de dentro dele. Uma família, suspeitei eu. Agarrei-me às minhas coisas e todos seguiram em direção ao restaurante. Guardei a minha agenda na bolsa e me levantei, entrei no restaurante lentamente, agarrada a ela, quando alguém me vê e grita:
– Ela ta tentando fugir sem nos dar nada!
Eu então começo a tentar me explicar e chorar feito um bebê no meio da fala.
– Não, eu já dei uma caneta para uma senhora, eu pedi para que ela não levasse a minha bolsa e ela aceitou ficar só com a caneta, não quero enrolar ninguém, é a verdade, podem perguntar a ela.
Um dos rapazes se compadece e me abraça. Eu então continuo a falar, só para ele.
– Eu sei que vocês não são más pessoas, que estão fazendo isso só por necessidade...
Eu senti carinho nos braços daquele estranho. Mas alguém o cutuca, avisando que já estavam voltando para o carro e me olha, perguntando na lata:
– E você? É vítima ou cúmplice?
Balanço a cabeça negando e o rapaz dos braços carinhosos vai embora. As pessoas no restaurante me fulminam com um olhar acusador e eu me direciono para a porta dos fundos. Quando eu estava saindo um garçom, pequeno e simpático, me aborda. Os assaltantes tinham deixado sacolas com algumas coisas e ele achando que eu os conhecia, veio me entregar. Perguntei-lhe se achava que todos estavam pensando que eu era cúmplice e ele disse que sim.
– Preciso ir para casa, não posso ficar aqui. Mas vou deixar meu telefone com você para que ninguém pense que estou foragida.
Entreguei-lhe meu número de casa e do celular e fui para a casa de um amigo.
Chegando lá vasculhei as sacolas, cheias de bugigangas aparentemente sem muita importância: carimbos, bonecos, DVDs... Peguei o DVD e coloquei no aparelho do meu amigo. Era uma série de TV. Com os assaltantes. Senti uma enxurrada cair em cima de mim. Toda a família trabalhava no mesmo seriado, que deve ter sido cancelado, deixando-os na penúria. De repente recebo uma ligação.
– Alô, é a Thaïs?
– É sim...
– Oi, é que eu tava assistindo televisão agora e saiu uma matéria falando sobre um assalto em um restaurante e você apareceu como um dos suspeitos...
– O quê? Eu? Mas eu deixei meu telefone lá, por que eles não me ligaram?
– Isso eu não sei, só to te passando o que vi na televisão.
– Obrigada por ter me informado, ta? Só quero que fique sabendo que isso é mentira, eu não tive nada a ver com esse assalto!
– Tudo bem. Boa sorte!
– Obrigada.
Desliguei o telefone, despedi-me do meu amigo e fui para a delegacia. Chegando lá na frente vi que já havia vários repórteres no local. Entrei na sala do delegado e pedi-lhe que apenas uma emissora de TV entrasse na sala para registrar o meu depoimento.
– Tudo bem. - disse-me ele - Mas você tem certeza? Seu depoimento vai ser visto por milhares de pessoas.
– Eu não tenho nada a esconder.
– Ok. Quer ligar pro seu advogado?
– Agora não. Só quero esclarecer logo esse mal-entendido.
O delegado chamou dois representantes da emissora que escolhi para entrar na sala e então comecei o meu depoimento, contando minuciosamente os fatos que eu lembrava.
– E foi isso que aconteceu. Eu só queria que eles soubessem que eu sei que eles não fizeram isso por mal, eu via que eles não estavam felizes em assaltar aquele restaurante, que foi tudo um fruto da necessidade extrema. Se eu pudesse, teria me tornado cúmplice deles, pois sei que eles não merecem ficar presos. Mas eu não posso. Não posso fazer isso com a minha vida. Tenho uma filha que depende de mim e isso não seria justo com ela. Por isso eu trouxe essa sacola que eles deixaram no local. – coloquei a sacola em cima da mesa do delegado e me virei para a câmera – Detesto ter que fazer isso, porque sei que teria gostado muito de conhecê-los em outra ocasião.

5 comentários:

Samuel Gois disse...

Desenvolve mais e da continuidade...daria um bom livro

Thaïs disse...

Pior que eu nem criei a história, foi tudo um sonho... Mas vou considerar a sua sugestão ;)

Samuel Gois disse...

Ta melhor que aquele livro que li, sayonara gangster

Thaïs disse...

Hehehhehe, deve ser uma beleza. Eu quaaaase comprava, mas olhei bem pra ele e disse "melhor não..." ;P

Lunara Vasconcelos disse...

mais um curta, fais? rsrs