quarta-feira, 28 de julho de 2010

Olhos cansados

Enquanto elas brincam na água eu me olho no espelho, tentando remover as imperfeições e lamentando as marcas que surgiram com o tempo. Por um tempo invejo a juventude delas, com toda a vida para ser escrita.
À medida que se vai envelhecendo, as partes do seu corpo vão sendo amarradas uma a uma ao chão. Por isso que o corpo idoso é tão pesado, de tão difícil locomoção.
Sei que as vantagens existem, só me falta descobri-las. Mas enquanto isso, eu evito franzir a testa.

domingo, 25 de julho de 2010

Carlota

Carlota era o nome dela, em homenagem à rainha. Tinha pernas tortas, diziam que de tanto atrair os corpos dos homens contra o seu. O que eu espalhava aos quatro ventos ser a maior calúnia, pois ela me jurava de pés juntos (na medida do possível) que era virgem. Ela dizia que estava se guardando para mim, o seu grande amor, que não era como essas mulheres que andam por aí entregando seus corpos a qualquer homem que lhe prometesse um jantar elegante.
Sempre acreditei ter tirado a sorte grande, por ter conseguido o amor de uma mulher tão cobiçada como Carlota. Andávamos de mãos dadas pelas ruas da cidade e atraíamos sempre os olhares curiosos, éramos vítimas de comentários dos transeuntes e eu sentia enorme orgulho pela minha vitória. Orgulho ferino, viria eu a descobrir posteriormente. Julgava-me superior por ter mulher mais pura e bela de todo o mundo.
Todas as noites eu voltava para casa com o corpo em chamas, por ter e ao mesmo tempo não ter a mulher dos meus sonhos, febril por imaginar minhas mãos perscrutando suas vestes justas, sonhos misturados com pesadelos, pois a culpa de pensar nela como uma qualquer, lasciva, pesava sobre a minha consciência.
Cheguei à conclusão de que a situação estava insustentável. Não havia motivos reais para eu permanecer nos abstendo da nossa felicidade. Peguei imediatamente o celular e liguei para Carlota, mas ela não me atendeu. Passava das dez da noite, era bem provável que já estivesse dormindo. Eu teria que me conformar em pedir sua mão no dia seguinte.
E às oito já estava de pé, em frente à sua casa. Mal cabia em mim de tanta ansiedade. Não tínhamos famílias rivais, mas eu me sentia como um Romeu, diante de tantas proibições. Inspirado nesse amor etéreo, resolvi subir até o seu quarto, para acordá-la com um beijo de príncipe encantado. Com muito custo consegui chegar à janela, apenas para descobri-la chegando ao êxtase com um enorme e suado ogro pressionado contra si pelas suas pernas tortas.
Talvez Carlota fizesse tanta questão de me convencer da sua virgindade porque eu era virgem. Eu queria me guardar para ela, para o meu amor e ela sentiu a obrigação de fingir ser igual a mim. Mas nós não éramos nem um pouco parecidas.
Entrei pela janela aberta e ambos deram um pulo, tamanho o susto. A primeira reação da minha amada foi mostrar-se pudica, mas eu ignorei as suas explicações e fui diretamente na direção do ogro, que assustado, recuou até sentar-se na cama. Sentei-me no seu colo e foi ali, na frente de Carlota, enrolada em seus lençóis brancos, que aconteceu a minha primeira vez.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Irromper

Era uma noite qualquer de um fim-de-semana qualquer, no mesmo bar de sempre. Lá estava, provavelmente, a mesma galera de sempre e eu sentada em uma mesa com alguns amigos, fato não tão recorrente assim. É que eu não costumo andar em bando, e tenho me sentado muito pouco em mesas de bar ultimamente, já que sentar implica em consumir, coisa que minha situação financeira não tem me proporcionado muito nos últimos meses. Eu tinha bem perceptível no meu míope campo de visão a minha não tão recente assim fixação, quando bateu aquela puta vontade de mijar. Levantei-me de supetão e irrompi para dentro do recinto. Ou pelo menos era essa a minha intenção, já que fui interrompida pela mão da minha fixação. Yes! Desejado e inesperado. Adoro homens que me surpreendem positivamente. Alguns adoro gratuitamente, infelizmente. É que eu tenho essa mania boba de achar sempre que encontrei alguém especial. Qualquer dia desses escrevo algum conto de fadas meloso.
O meu príncipe, ao invés de uma espada, empunhava um baseado, no lugar do cavalo conduzia um Fiat Uno e a nossa história não terminou com “e viveram felizes para sempre”. Apesar do baseado ter nos proporcionado uma felicidade instantânea seguida de outras felicidades momentâneas. Minha primeira felicidade foi ter sido abordada, claro, já que diante da indiferença dele, passei a fingir ignorar sua presença, numa (das muitas) tentativas de esquecê-lo. Aceitei entrar na roda. Não que eu estivesse realmente com vontade de fumar, já tinha bebido muito na mesa com meu bando da consumação, mas qualquer pretexto é válido para se ficar perto do junkie do seu coração. Então ele me ofereceu uma carona para casa. Eba! Segunda felicidade. Eu já tinha carona garantida, mas nenhuma que me fizesse tremer as pernas e palpitar o coração.
Despedi-me dos amigos da mesa, que provavelmente me censuraram pela atitude, mas fazer o que, eu sou mesmo rated R. No carro tive a terceira, quarta e quinta felicidades. Um carinho discreto, um beijo na boca e um sexo ébrio. É tudo que posso dizer. No dia seguinte acordei com a bunda arranhada e o abajur do quarto quebrado. E no fim das contas acho que acabei esquecendo de ir ao banheiro.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A tua presença

Eu estava sentada à procura da inspiração quando me deparei com o seu trabalho. Pensei “poxa, era esse tipo de coisa que eu gostaria de fazer”, mas era só mera utopia pra mim. Não que eu pretenda desistir, provavelmente passarei o resto da vida escrevendo uma meia dúzia de textos que me agradem, mas me frustrando com a enorme maioria do que sai da minha pouco inspirada mente.
Talvez seja exatamente esse o problema, a falta de inspiração. Começo a escrever sem saber o que quero e passo apenas a me lastimar pela ausência da musa ao meu lado, por não ter um emprego ou por não ter um amor. Nesse fim-de-semana eu comi ostra crua e isso pode ser um problema quando não se tem um emprego nem um amor.
Nesse fim de semana, como em todos os outros, eu saí com amigos. Foi muito agradável e divertido, mas me senti incrivelmente só. E escrever sobre isso já ficou chato e repetitivo. Mas eu estava lá, esperando que alguém me trouxesse boas notícias, inebriada com os aromas da noite, e decepcionada com a única ausência que me importava. Talvez fosse melhor se tivesse continuado assim, essa presença só me deixou mais só. É negra, negra negra...

domingo, 4 de julho de 2010

Ah, o amor! (ou "Can buy me love")

 hauehauehaueae
 MULHER
 qro um amor ;~
 xo ler personare

 EU TAMBÉM
 não
 eu quero um emprego
 !!!!!!!!!!
 porra de amor
 o amor que se foda
 com dinheiro eu compro o amor
 HUAHUAHUAHUHUAHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHA

 ahuehauehauehauehaue
 AHUEHAUEHAUEHAUHEAUEHAUEHAUEHAUEHA
 AHEUAHEUAHEUAHEUAEHAUEHAUEHAUEAH
 ri mto agora

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dedos gelados

Estou com as pontas dos dedos geladas. Dizem que é exagero sentir frio aqui no nordeste, que aqui não existe inverno de verdade. Talvez, comparado aos invernos siberianos, o daqui seja realmente apenas uma brisa fresca. Mas eu, eterna moradora de regiões tropicais, não tenho o direito de sentir frio na minha terra natal? Devo esconder meus dedos gelados e fingir estar acostumada a uma temperatura de 20°? Tudo bem, me critiquem, mas umas luvinhas viriam a calhar.
Mas mais do que as mãos, gostaria de aquecer meus pés. Faz tempo que não tenho senão meu edredon para fazê-lo. Isso me incomoda demasiado, mas o que posso fazer? Boto a bota, as mãos nos bolsos e saio pro mundo, à procura nos becos e bares mais improváveis. Lá encontro para me aquecer o álcool, o fumo, a música, a dança e os ambientes fechados. Aí o calor vem pra lascar. Então, com meus pés suando e com os pelos dos meus braços comportados, esqueço a tempestade gélida que tenta se apoderar do interior do meu corpo e não me choco mais com a minha temperatura.
Passo a procurar olhares cálidos, mas não há acordo entre os frios e os quentes. Talvez por culpa minha, mas talvez não. Por fim desisto e olho para o alto. Para a música, para a luz, para o céu. E passa por mim um corpo frio, outrora quente, outrora frio, outrora quente. Finjo que sou também um corpo frio. E ele, como um cubo de gelo, passa escorregadio ao meu lado, deixando apenas um rastro úmido.
E a noite se estende, meu corpo quente finge ser frio e seu corpo frio, em algum momento, finge ser quente. Nossas temperaturas não mais se encontram na tentativa de trocarmos calores à procura de uma sensação tépida, desejo que sim, mas espero que não.

sábado, 19 de junho de 2010

Eu não preciso de você

Com as mãos trêmulas segurava o telefone, desejando que ele tocasse, para que não fosse necessário que ela própria fizesse a ligação. Mas é claro, o telefone não tocou, ele nunca toca. Procurou na agenda, com o corpo estremecendo de tanto nervosismo, o nome dele. Parou por segundos intermináveis a fitar esse nome, momentos finais antes da decisão de ligar efetivamente. O telefone começou a tocar e seu coração palpitava como se quisesse fugir pela boca. Os pelos do braço se eriçavam como os de um cão de guarda atento à chegada de um estranho. Ela divagava nos seus pensamentos, criando todo um diálogo perfeito, onde ela dizia tudo que estava emperrado na epiglote.
- Alô?
Ele atendeu ao telefone. Ela mal conseguia falar, tamanho o nervosismo.
- Oi, é a Isadora.
- Oi, tudo bom? – ele, cordial como quase sempre.
- Levando, e você?
- Estou bem.
- Que bom.
Deu-se então um silêncio ensurdecedor.
- Então, por que você ligou? – disse ele finalmente.
- Eu precisava falar com você.
Nova pausa. Dessa vez ela recomeçou.
- Preciso saber o que você pensa de mim.
Uma pausa dele. Precisava escolher bem as palavras.
- Por que?
- Porque eu gosto de você.
Mais uma pausa no diálogo. A voz dela estava trêmula, como se seu coração estivesse descompassado por uma caixa de som gigante direcionada diretamente para o seu peito.
- Olha, Isadora... Eu nem sei como te dizer isso, mas... Eu não to a fim de namorar, saca?
- Sei... Eu já imaginava. Na verdade eu só queria saber o que você pensa de mim. De verdade. É importante. Não gosto de ser mal interpretada.
- Mal interpretada como?
- Tenho a impressão de ter seguido uma sucessão de erros desde a primeira vez em que estivemos juntos. Agi dessa maneira porque qualquer migalha de atenção que você me desse era suficiente para me satisfazer. Mas depois desse tempo todo, tenho a impressão de que o tiro saiu pela culatra.
- Como assim?
- Acho que causei uma impressão errada a você.
Silêncio.
- Por isso preciso saber o que você pensa de mim.
- Pô, eu... eu acho você massa, inteligente, divertida...
- Fácil?
- Oi?
- Você me acha fácil? Periguete?
- É essa a sua preocupação?
- Sinceramente, é.
- Você não devia se preocupar com esse tipo de coisa.
- É, eu também pensava assim. Mas aí eu vi que você me tratava como uma periguete.
- Eu?
- Sim.
- Pô, eu nem sei o que te dizer.
- Me diz se você acha que eu sou uma periguete.
- Eu não faço esse juízo das mulheres. Se eu achasse que você era uma periguete, em primeiro lugar, jamais teria ficado contigo.
- Mas você não me respeita.
- De onde você tirou essa ideia?
- Você não age como se me respeitasse, simples.
- Eu acho que você está equivocada.
- Você faz ideia de como eu me senti da última vez que a gente se viu? Você lá cheio de agarrados com outra, tão pouco tempo depois. E nem pra falar direito comigo.
- Eu já te falei, eu não estou a fim de namorar.
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É uma questão de respeito.
- Olha, só, me desculpa, mas a gente vai ter que continuar essa conversa outra hora. Tenho que sair agora pra resolver uns negócios...
- Sei.
- Depois a gente se fala, tá?
- Tá.
- Tchau.
- Tchau.
Ela não se arrependeu de ter feito a ligação. Sentiu muita raiva, claro, mas era provavelmente o que ela precisava para se convencer de que precisava esquecê-lo. Todas as suas amigas já tinham cansado de repetir que ele não valia nada, não valia a pena, que ela merecia algo melhor. Ela também sabia disso. Mas gostava dele a ponto de não querer esquecê-lo.
Agora não. Agora ela tinha uma raiva incontida dentro dela. Precisava se vingar. Iria apaixonar-se por outro.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Roubadas

- Amiiiga, esqueceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee ele e seja feliz! Happy, happy! Quem falou que a gente precisa de homem pra ser feliz? Hum? Hum?
- Eu? Hiuehiauhuiehuiheuiahe. Mas então, eu sei que ele não é o homem que vai me fazer feliz, mas é mais forte do que eu. Enquanto não aparecer outro que me tire ele da cabeça vou ficar nessa.
- Hahahahahahaha! E o amigo da sua mãe?
- O gay de 45 anos? Tá falando sério? Aehuihieuhuaiheiuahieuh, não sei qual roubada é maior.