quinta-feira, 29 de junho de 2006

Casamento

Essa noite eu sonhei que me casava. Com direito a festão, vestido branco e tudo mais. Eu. Isso é assustador.
O pior é que eu acordei e fiquei sem saber quem era o meu noivo.
Instinto materno ainda vá lá, mas querer casar a essa altura do campeonato? Isso não!
O engraçado é que terminado o casório eu voltei pra casa. Nada de noivo nem de lua-de-mel. Só eu, mesmo...

quarta-feira, 28 de junho de 2006

O moreno

Uma e meia da tarde saí do ginecologista e fui para a parada de ônibus.
Sentei ao lado de um rapaz moreno, de cabelos curtos e alguns primeiros fios brancos.
Não gosto muito de paquerar, mas ele percebeu o meu interesse e começamos a conversar.
Atrás de nós estavam sentados dois mórmons barulhentos. Acho que queriam que todos no ônibus soubessem que eles eram gringos. Até hoje não entendi qual é a dos mórmons.
Quando me dei conta estava beijando o moreno. Descobri da pior maneira que não é algo muito confortável beijar alguém dentro de um ônibus em movimento.
Ao olhar novamente para o rosto dele me arrependi imediatamente do que tinha acontecido. Ele sorria para mim e perguntou-me se eu queria ser sua namorada.
Arregalei os olhos e aleguei que nem o conhecia. Ele ficou furioso. Só não me chamou de santa.
O ônibus chegou na minha rua e puxei a cordinha para descer. O moreno segurou o meu braço e começou a me ameaçar.
Consegui me desvencilhar dele, desci correndo até a minha casa.
Quando estava abrindo o portão, o ônibus dobrou a esquina.
Acordei.
Levantei-me, puxei a cordinha e vim andando até a minha casa.

sábado, 24 de junho de 2006

Sentada no chão da minha casa ela admitiu que só estava comigo por interesse. Eu fingi que já sabia e disse que não me importava com isso. Eu gostava de estar com ela e acreditava que agüentaria me sujeitar à humilhação que fosse para ficar ao seu lado. Hesitou um pouco quando propus que continuássemos como estávamos, mas cedeu. Dessa maneira ela poderia continuar com seu plano inicial.
O que eu não sabia era que machucava mais estar ao lado dela enquanto pensava em outro, do que estar longe, me alimentando de um amor platônico. Aos poucos uma angústia tomou conta de mim, como se eu tivesse cólicas eternas. Toda vez que eu me deitava com ela podia ouvir seus pensamentos chamando o nome de outro homem. Chamei-a pelo nome da mãe dela, só para irritar.
Hoje estamos casados e com dois filhos.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Hippie

Era dezembro e eu juntei o que sobrava do meu décimo terceiro para viajar com uma amiga. Escolhemos uma praia ao norte do estado, linda, cheia de turistas. Meu sonho era encontrar um homem nórdico que quisesse me levar para passar o resto das férias na Suíça. Acho que essa minha cara de indiana não atrai muito os gringos, porque flertei a torto e a direito sem ganhar um beijinho sequer a noite toda.
No dia seguinte resolvi não esquentar com os homens e bebi litros e mais litros de cerveja. Quando me dei conta, estava achando que era o Gene Kelly, pulando nas poças d’água no meio da rua. Na hora não esquentei muito, achei que os suíços podiam gostar de um pouco de excentricidade brasileira.
No nosso terceiro dia na praia fui acometida de uma dor de cabeça lacerante e resolvi maneirar um pouco na bebida. Sóbria, aproveitei para visitar a feirinha de artesanato, de repente comprar um brinco, um colar... Enquanto eu passeava desinteressada fui abordada por um hippie, que segurou a minha mão e começou a me fazer um anel no formato de coração. Eu não me incomodei com as investidas dele, pelo contrário, algo naquele homem alto, moreno, descalço, cheio de dreads e tatuagens me agradou. O quê que é o mistério. Quando me dei conta estava atracada com ele no meio da rua.
Ao invés de um nórdico, eu fui dormir aquela noite com um hippie piolhento.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Solidão

Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo-Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietszche? Ah, que livro! Deus Todo-Poderoso, vou jogar limpo nesta questão. Vou Lhe fazer uma proposta. Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à Igreja.
Pergunte ao pó, John Fante


Puxei a cordinha do ônibus e desci na Prata. Olhei ao meu redor, mas não encontrei ninguém me esperando lá. Fui até a arvorezinha da esquina e me encostei nela para esperá-lo. Estava sem relógio e não tinha noção do tempo, mas imagino que tenha ficado esperando uma meia hora. Nesse meio tempo passou um carro cheio de homens fazendo gracinha para mim. Fechei a cara e olhei para o lado oposto.
Por mais que eu fizesse força para ter raiva dele, escancarei o sorriso quando o vi chegar. Deu-me um beijo no rosto e levou-me pela mão até sua casa. Senti um frio na espinha ao entrar lá. Tinha cheiro de homem. Fazia tempo que eu não sentia esse cheiro. Senti uma nostalgia maravilhosa. Passamos direto pela sala e fomos ao quarto dele. Afastou as cuecas e as meias jogadas em cima da cama para que eu me sentasse. Então começamos a nos beijar.
Ao fim da tarde ele vestiu as calças e acendeu um cigarro. Olhei para o lado e vi suas costas nuas. Sentei e comecei a me vestir. Quando eu já estava pronta, vestiu uma camisa branca, calçou as havaianas e abriu caminho até a parada do ônibus. Ao chegarmos ao ponto, beijou-me a testa e falou:
- Até amanhã.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

A república dos belos

O presidente da república declarou em rede nacional que a partir de agora todos os feios do país estão proibidos de gerar descendentes. A revolta foi geral. Os primeiros a se manifestarem na mídia foram os cirurgiões plásticos: "eles querem me deixar desempregado" declara o cirurgião que pede para não ser identificado. Os belos também reclamam: "o que será de nós sem os feios?" diz modelo. Até então nenhum feio se pronunciou. Há boatos de que o presidente vem sendo apelidado de Hitler com essa tentativa de ter futuras gerações no país formadas só de pessoas bonitas fisicamente.

sábado, 18 de março de 2006

Ideologia

Ouvi dizer que o Cabral seria a nossa salvação. Obviamente entrei em pânico, pois não confio nesse sujeito. Minha mãe falou que eu devia me redimir enquanto é tempo. Eu nunca ouvi minha mãe, por que o faria agora?
Por que logo o Cabral? Odeio gente burra. Acho que essa é a hora de me mudar... Ou seria a hora de mudar? Se o Cabral fosse eleito e eu estivesse ao lado dele, estaria feito na vida! Quem sabe eu não me lançaria na carreira política também?
Minha mãe vai ficar tão orgulhosa de mim! Tenho que ligar para dar-lhe as boas novas!

- Mãe!
- Pedro?
- Eu vou ser deputado, mãe!
- Você? Mas você sempre odiou política.
- Eu vou fazer as pazes com o Cabral e pedir a ajuda dele para lançar a minha carreira política!
- Você não ficou sabendo?
- Sabendo do quê?
- O Cabral morreu ontem, Pedro!

sábado, 7 de janeiro de 2006

MSN: Ara, caju!

Taï diz:
vai ter xou de zeca baleiro de graça em aracaju
eu quero ir pra lá ;~~

Ega da Moela diz:
ehiehieheihei
eu nao
tenho medo de aracaju

Taï diz:
heuehuehue
medo por que?

Ega da Moela diz:
sei la
nunca gostei do nome
=P

Taï diz:
af
eu gosto de caju

Ega da Moela diz:
é, mas o q é um ara antes do caju?
soh pde ser bixinho da indigestao
=P

Taï diz:
é um matuto falando
jeuehuehuehuehuehe
ara, caju!

Ega da Moela diz:
hahahahahahhahahhahahaahahah
boa
=P

Taï diz:
heuhueuhehuehueuhehueueuheh

Ega da Moela diz:
entao, tenho medo de matuto com foice
=P

Taï diz:
afff
mas esse matuto só toma cana

Ega da Moela diz:
entao
pra matar e cortar em pedacinhos é dois minutos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

domingo, 11 de dezembro de 2005

13/06/05

Os dias seguiam-se normalmente.
Eu estava na casa de uma amiga, coisa cada vez mais rara nos últimos tempos, divertindo-me, quando recebi a ligação: minha mãe me dizia que ela estava morrendo. Ou quase isso. Na verdade só falou para eu comprar remédio quando voltasse para casa. Eu não me dei conta do quanto o organismo dela era frágil e nem me preocupei muito. Pensei: "quando eu estiver voltando compro". Fiquei um pouco preocupada, mas continuei lá.
Pouco depois minha mãe ligava novamente dizendo "deixa pra lá, agora não adianta mais". Foi aí que eu engoli um coco com um elefante pesando na minha cabeça. Eu andava triste com o fim do meu namoro, mas a morte dela foi o que me permitiu liberar toda a solidão e impotência que me consumiam. Eu me sentia cada vez mais incapaz de cuidar do que eu gostava.
Quando cheguei em casa ela estava deitada no chão do meu quarto, dura e morta, como um animal empalhado. tranquei-me no quarto e pela primeira vez depois de muito tempo, eu chorei de verdade. Sem medo de quem poderia me ouvir, sem apreensão do que poderiam pensar de mim. Chorei pela morte dela, pela partida dele, pela solidão que eu sentia. Chorei por todos os choros que prendi nos últimos tempos, por todas as mágoas que não liberei por não afogá-las o suficiente.
O pior foi que nessa situação eu sabia que só encontraria conforto nos braços que abandonei. Ela também era filha dele, só ele poderia me entender naquele momento.
Depois a irmã dela fugiu de casa.
Apesar de tê-las amado, decidi que não teria mais porquinhas-da-índia.

sábado, 26 de novembro de 2005

Polishop

- Mamãe?
- Sim, querida?
- Eu já sei o que vou querer no dia das crianças.
- Ahn, é mesmo? Que bom... E... O que você vai querer, meu anjo?
- Eu quero um Invisible Bra.
- Um sutiã? Mas pra quê?
- E você ainda pergunta?
- Mas meu amor, seus peitos ainda nem cresceram!
- Ai mãe, o que são detalhes?
- Esqueça, Maria Luiza, eu não vou te dar esse sutiã.
- Tá bom! Então eu vou querer uma Flat Hose.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Eu gostaria de lhes apresentar a minha melhor amiga

1999

- Se você torcer pro vasco eu te arranjo uma foto dos Hanson pelados - disse um garoto que morava no prédio da minha amiga.
- Combinado! - eu falei empolgada.
- Ela já torce pro Vasco - interrompeu a minha melhor amiga.

sábado, 19 de novembro de 2005

Golfinhos

- Está assistindo O Guia do Mochileiro das Galáxias?
- Sim.
- E aí, tá gostando?
- Mais ou menos.
- Por quê?
- Os golfinhos cantam...

sábado, 12 de novembro de 2005

A pata da caverna

Eu estava sentada na mesa da cantina quando percebi a inquietação de um cara da mesma mesa. Cheguei perto dele e perguntei qual era o problema e ele me falou que era seu irmão. Provavelmente guardava seus anseios há muito tempo, pois nem chegou a hesitar em me falar todos os seus problemas em relação ao irmão dele.
Aí começou uma loucura sem fim. O cara não podia ir atrás do irmão e implorou que eu fosse no lugar dele. O que eu podia dizer? Ele estava desesperado. Achei que estivesse louco também, mas aí ele me levou até um lugar do colégio que tinha um buraco no chão que dava pra uma espécie de caverna subterrânea. Eu me senti o próprio Harry Potter. Mas ele pelo menos tinha poderes mágicos e uma amiga CDF. O cara nem pra me acompanhar, disse que eu tinha que fazer tudo sozinha. A única coisa que eu sabia do irmão da criatura era o nome dele. Ia sair pela caverna subterrânea da escola (que loucura, eu ainda não consigo acreditar no que digo!) perguntando o nome de tudo que encontrasse por lá. O que respondesse devia ser o irmão do carinha.
A primeira coisa que encontrei foi logo um velho. Eu estava com uma sacolinha cheia de comprimidos que não sabia ao certo pra que serviam, mas serviriam para o irmão do carinha e quando perguntei ao velho se ele podia me ajudar, me disse que já tinha feito muito por mim. Todos daquela escola eram loucos, ou então eu estava numa pegadinha.
O velho me disse que tinha feito a Julia Roberts pra mim. Eu fiquei olhando pra ele. Nem parecia ser um louco. Mas só podia. Como assim pra mim? Eu não era lésbica e tampouco fã da Julia Roberts. A existência ou não dela não fazia a menor diferença para mim. Eu nem morria de amores pelos filmes que ela tinha feito. Além dela, ele também me disse que tinha feito mais dois homens que eu não conhecia. Um se não me engano era um cientista que tinha criado uma espécie de carro aquático para o exército, ou qualquer coisa do tipo. O outro também era um cientista. Os dois homens criados para mim nasceram pelo menos uns quarenta anos antes de mim. Aquele velho só podia ser maluco. Segui em frente atrás do irmão perdido.
Fui informada de que o irmão do carinha, o Daniel tinha uns probleminhas. Mas acho que quem tinha problemas mesmo era o carinha e não existia Daniel nenhum. Quer nome mais óbvio? É tipo quando um cara vem perguntar o seu nome e você não quer responder e diz “Camila”. É universal. Mas mesmo assim, fui atrás do Daniel. Mesmo me sentindo uma pata. Eu sempre fui uma pata. E de qualquer forma, aquela caverna subterrânea era mesmo muito esquisita.

TBC(?)

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

(In)correspondência

Cara correspondente,
Escrevo-lhe esta carta com o intuito de confessar o meu amor por você. Passo os dias observando as suas janelas e vendo o movimento das suas portas. Meu coração enche-se de felicidade quando tenho a sorte de vê-la saindo de casa ou chegando na mesma.
Meus únicos momentos de desilusão são quando vejo que és visitada por diversos homens. Se me deres a oportunidade, lutarei contra todos que se opuserem à sua pureza.
Atenciosamente,
Seu Admirador.

Caro admirador,
Fiquei surpresa e muitíssimo lisonjeada ao receber a sua carta.
Desde o final do meu último namoro eu vinha me sentindo muito só, e meus amigos foram os que me ajudaram a sair da fossa. Você mesmo, provavelmente não teria me olhado no estado deplorável no qual eu me encontrava antes de receber a força deles.
Então você se pergunta por que eu não pedi ajuda às minhas amigas. Simples: todas elas se encontram comprometidas, e acabamos nos afastando sem percebermos. Portanto, peço-lhe que não veja minhas amizades com eles com maus olhos, pois tratam-se todos de amigos do peito.


Querida Admirada,
É o fato de serem seus amigos do peito que me preocupa. Amigos do peito e de outras partes também.
Se me desses a honra de namorar-te, não precisarias da visitação de outros homens.
Sempre seu.

Sinto decepcioná-lo, mas eu jamais abriria mão das minhas amizades por causa de um namorado. Tenho os meus motivos para não acreditar na eternidade dos relacionamentos e mais ainda para acreditar na eteriedade dos namoros.

Percebo agora o quanto os homens devem tê-la machucado mas peço-lhe que confie em mim, e a farei feliz por toda a eternidade.

Por favor não me escreva mais. A última coisa que preciso é de um psicólogo amador. Espero que não responda essa carta nem escreva outras. Isso é um adeus.

Como posso deixá-la em paz se estou completamente apaixonado?

Simples. Não olhe mais as minhas janelas e esqueça as minhas portas. Não me escreva mais. Esta é a minha última carta endereçada a você.

Suplico-lhe que não me odeie! Eu só quero fazê-la feliz. Por favor me responda. Um beijo.

O que eu fiz para irritá-la? Fui eu descortez e indelicado em algum momento? E quem é aquele homem que tem ido à sua casa todos os dias?

Por que ele só sai da sua casa de madrugada? É mais um dos seus amigos? Sua puta! Eu vou me vingar.

Eu sei que já se passaram muitos anos e que você se mudou dessa casa logo depois que casou. Eu só queria dizer que ainda te amo.

sábado, 5 de novembro de 2005

Fique tício: bebe negão

- É assim que as coisas funcionam. No mundo, ou você rejeita ou é rejeitado.
- Ora, as coisas não são tão simples assim.
- Simples?
- É. Se for apenas esse o problema você só precisa rejeitar quando estiver pressentindo que vai ser rejeitada.
- Não adianta. Você pode até dizer que acabou, mas a rejeitada vai continuar sendo você.
- Eu acho é que você está sendo muito pessimista.
- De jeito nenhum. Estou sendo o mais otimista que posso. Ou pelo menos realista. Eu sei que sou eu a rejeitada dessa vez. Mas estou conformada com isso. Não foi a primeira vez e definitivamente não será a última. Mas por mais que os relacionamentos nos quais eu rejeitei tenham sido mais superficiais, acho que prefiro ser a “rejeitante”.
- Claro, você não é o peso.
- Exato, eu seria quem perderia o peso.
- Por falar em perder peso, estou precisando me exercitar.
- Vá pra academia. Fazer só sexo não adianta. Principalmente se você não faz mais, hehehe.
- Como você sabe?
- Eu estava brincando... Isso significa que você também é a rejeitada?
- Acho que quanto mais velhas ficamos maiores são as chances de sermos as rejeitadas, não é mesmo? Isso não acontecia quando éramos mais novas. Éramos nós que ficávamos fartas dos nossos namorados e acabávamos o namoro. Por que será isso?
- Não sei. Só sei que é um saco.
- Talvez homens gostem mesmo de ninfetas inexperientes.
- E você tinha alguma dúvida quanto a isso?
- Só você pra me fazer rir da minha própria desgraça desse jeito, hehehe.
- Ora, amiga é pra essas coisas. E de qualquer forma, ainda tem muito homem no mundo.
- Heterossexual?
- Bom...
- Eu já te falei do Rodolfo?
- Quem?
- Um rapaz dois anos mais novo por quem eu me interessei há uns três anos.
- Claro que eu não lembro.
- Bom, de qualquer forma, descobri essa semana que ele é gay.
- E daí?
- E daí? Daí que mesmo quando eu não sei que eles são, acabo me interessando por gays!
- É um karma.
- Karma o caralho. Aposto que é macumba.
- Ah, essa aposta é minha! Já marquei até hora em mãe-de-santo.
- Mãe-de-santo? Isso existe?
- Espero que exista. Com o preço que ela cobra dava pra comprar uma grade de cerveja.
- Aposto que o efeito seria o mesmo.
- Cerveja para curar mal-olhado?
- Vodca para trazer de volta a pessoa amada!
- Cachaça para tirar maldição!
- Vamos beber.
- “Eu vou beber pra esquecer meus pobremaaaaaaa!”
- Te amo.
- Também te amo, querida.
- Pena que você não tem um pinto.

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Triângulo

Eu estava em casa, fazendo a minha sobrancelha, quando a campainha tocou. Deixei a pinça de lado e três mulheres com cara de mafiosas estavam na porta. Sem dizer uma palavra sequer, fiquei pensando que elas pareciam saídas de um filme sobre a máfia feminina. Nem sei se isso existe, mas era isso que elas pareciam. A mafiosa do meio se movimentou até o meu sofá e se sentou com a maior naturalidade do mundo. Olhei novamente para as outras duas, mas elas permaneciam paradas na porta. Menos mal, pensei. Duas bundas sujas a menos no meu sofá de veludo azul. Tentando se fazer ainda mais folgada, a mafiosa chefe ligou o meu aparelho de som e Bobby Vinton começou a cantar Blue Velvet.
A mafiosa-chefe era dessas mulheres que querem ao mesmo tempo serem fortes e femininas. Ela tinha uma pele morena reforçada por um bronzeamento natural intensivo e um cabelo duro estirado e pintado de loiro. Vestia uma calça jean com lycra, cintura baixa e um salto alto grosso, daqueles que sua vó usaria no seu casamento. Pra completar o quadro, vestia uma daquelas blusas assimétricas, deixando o braço direito descoberto. As companheiras dela eram assumidamente masculinas e usavam ambas os cabelos presos, calças jeans sem lycra e camisetas de algodão de um número menor que os delas.
Confortável com a bunda no meu sofá, a mafiosa-chefe começou a falar:
- Então, Thaïs, surpresa em me ver?
- Quem é você? - perguntei com a maior naturalidade do mundo. Pude ver a surpresa dela. Minha resposta tinha sido inesperada. Hohoho, otária. Ciente do seu deslize ela tentou recuperar seu ar de superioridade.
- Não precisa se fazer de desentendida, mona.
Mona?
- Eu sei que você se lembra de mim. Jamais esqueceria aquela que te ameaçou de morte.
- Morte? Você não está me confundindo com outra pessoa?
- Não se faça de idiota, eu não tenho tempo para as suas gracinhas. - ela me alertou já irritada.
- O que você veio fazer aqui? Me matar?
- Ainda não. Eu vim só te dar um aviso. Se afaste do meu homem, ou da próxima vez eu não serei tão educada.
- Educada? - seus olhos se encheram de fúria e emendei amedrontada - E será que você poderia me dizer ao menos quem é o seu homem?
- Você me irrita, garota!
- Me diga só o nome dele.
- Será que você é tão puta que nem sabe os nomes dos homens com quem dorme?
- Eu sei os nomes de todos, só não faço idéia qual deles seria o "seu". Até onde eu sei, nunca dormi com um homem que estivesse comprometido com outra.
A mafiosa se calou. Olhei para a porta e as duas outras se entreolharam. Por um momento eu pensei que fosse morrer.
- Nós ainda não estávamos comprometidos. Mas ia rolar. Teria rolado se você não tivesse aparecido.
- Olha, eu nem sei de quem você está falando ainda, mas foi uma casualidade. Não era pra ter acontecido entre vocês, é só você partir para outra.
- Ele não partiu para outra! Você partiu o coração dele e eu tentei consolá-lo inúmeras vezes, mas ele não queria saber de mim.
- Olha, eu sinto muito...
- É claro que sente! Todos sentem! Sentem tanto quanto eu!
Ela estava descontrolada.
- Bom, de qualquer forma, pelo que você está dizendo nós nem estamos mais juntos, então o que veio fazer aqui?
- Eu vim te avisar para ficar longe dele. Finalmente estou conseguindo me reaproximar dele e não quero que você estrague tudo novamente, "capitchi"?
- Sim, capisco.
- Você já sabe de quem eu estou falando?
- Acho que sei...
- Ótimo. Então espero que esse seja o nosso adeus.
A mafiosa se levantou do meu sofá e desligou o som, interrompendo Billie Holiday no meio de The man I love, e se juntou novamente às suas guarda-costas na porta. Virou-se mais uma vez para mim e apontou em minha direção, fazendo o sinal de uma arma. Fingiu atirar e piscou o olho. Depois deu-me as costas e foi embora, seguida pelas guarda-costas brutamontes.
Após a saída dela fui até a porta e a tranquei o máximo possível. Fui despindo as minhas roupas até chegar no meu quarto e ser puxada para a cama.
- Ela já foi?
- Já. E me ameaçou de novo.
- Me desculpa. Eu só era simpático com ela porque tinha medo das duas brutamontes. Afinal, eu não bato em mulher.
- Sim, claro.
- Escuta, você quer casar comigo?
- Não.
- Por que não? Não precisa ter medo dela, ela só faz falar, não é do tipo que se arrisca a ter a ficha suja.
- Não é isso.
- Então o que é?
- É que... - hesitei.
- Pode falar, não precisa ter medo.
- Eu não te amo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Gatos em pedaços

Sentada na privada lendo Sonhos de Bunker Hill, lembrei-me do sonho que tive esta noite. Quando ele (refiro-me aqui a Arturo Bandini) falou dos gatos do editor Gustave Du Mont, voltou à minha mente a imagem dos gatos mutilados na porta da minha cozinha. Eles estavam enlouquecidos de fome, e eram os gatos da universidade (a UFPB tem muitos gatos), alguns inclusive grávidos e/ou de coleira. Lembro de uma gata grávida de coleira me atacando, desesperada por comida. Será que alguém os alimenta durante a greve? No momento seguinte eles estavam mutilados no quintal da minha casa, e eu podia vê-los embaixo da porta da cozinha (a porta é dessas que abrem em cima e embaixo), um estava com o corpo remendado, quem nem o cachorro do anime Beck, mas os outros eram só pedaços. Lembro até de um que tinha um dedo enfiado no cu. De quem seria aquele dedo?

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

O submarino voador

Eu tenho um pequeno submarino em casa. Na verdade é do meu irmão, foi ele quem o montou todo. O sonho dele era sair dentro desse submarino a toda velocidade, mas desde que tinha ficado noivo, meu irmão só queria saber da namorada dele. Ela era um porre.
Um dia eu conheci um homem. Maravilhoso, encantador, etc e tal. O homem dos meus sonhos. Eu o desejava e ele a mim. Ele veio até a minha casa e descobriu o submarino. Ficou fascinado. Lembrou-me até o Dean Moriarity. Foi até o quarto do meu irmão para pedir a autorização dele para andarmos no submarino. Foi expulso pelos gritos da talzinha. Saímos no submarino sem a autorização, mesmo.
Era um sonho. Ele parecia saber de tudo. Conhecemos tantos lugares e pessoas fantásticas...
O submarino do meu irmão também voava. Era isso que fazíamos a maior parte do tempo. Não lembro direito o motivo, mas precisávamos deixá-lo mais rápido, então voltamos pra casa. Eu, Dean, o submarino e um maluco que ele dizia ser o seu mestre, que também era terrivelmente charmoso.
Mostrei um treco de hidrogênio que meu irmão sempre quis montar no submarino mas não pôde depois que começou a namorar o monstro. Ao ouvir a nossa algazarra (Dean e seu mestre eram muito afobados) meu irmão veio correndo para o quintal. As atitudes dele pareciam as da monstrinha dele (ela na verdade era linda, mas tinha uma personalidade terrível), brigando e gritando conosco por causa do submarino. Eu disse a ele que tínhamos feito o submarino voar, e que tínhamos voltado para pôr o treco de hidrogênio que ele tinha arranjado. Depois de tanto tempo, os olhos dele começaram a brilhar novamente, e meu irmão se juntou a mim e a Dean no aperfeiçoamento do nosso submarino. A monstrinha tinha sido abandonada e só fazia resmungar pela casa, e o mestre só saía pra beber e curtir, chamando sempre todos os rapazes pra sair. Eu fui deixada de lado assim que o submarino pousou no meu quintal.
Um belo dia, cansados do trabalho, meu irmão, Dean e o mestre saíram para relaxar. Como o mestre passava o dia relaxando, voltou mais cedo.
- E aí, menina?
- Oi, mestre. De volta tão cedo? Logo você?
- É que eu não me dei tão bem quanto os rapazes.
- Como assim?
- Você sabe...
Eu entrei em pânico. Obriguei o mestre a me levar onde eles estavam, mas ele se recusava. O monstrinho também tinha ouvido, mas ela andava cada vez mais quieta, só se recolheu chorosa para o quarto do meu irmão.
O mestre também sentia uma atração por mim. Foi aí que viu a sua chance, resolveu me levar. Ele me mandava olhar pra cima o tempo todo. Até que os vi. Nem reparei na companhia do meu irmão, mas o meu Dean estava com uma negra de pernas enormes e cabelos curtos. Fiquei em estado de choque por longos minutos, até que o mestre me arrastou de volta pra casa.
Antes que eu começasse a chorar olhei pro rosto dele e me deparei com aqueles olhos dos quais eu fugia diariamente para não ceder ao desejo. Agora eu não tinha mais essa obrigação. Não precisava mais me manter fiel ao Dean. Abri a porta do submarino e o chamei para dentro. Assim que ele a fechou eu o ataquei. Pulei na sua boca como se quisesse toda sua saliva para mim, enquanto ele apertava o meu corpo como se quisesse arrancar pedaços e guardá-los para si ou comê-los.
A partir daquele dia fazíamos sexo sempre que meu irmão e Dean saíam sós. Dean via as marcas no meu corpo, mas nunca falávamos sobre elas. Claro que o mestre tinha outras mulheres quando saía só, mas isso não me dizia respeito.
- Viu só, cara? Teu mestre só sai sozinho agora.
- Vai ver ele se cansou de ouvir vocês falarem sobre esse submarino.
- Ih, minha irmãzinha tá parecendo alguém que eu conheço...
- Não me compare à sua monstrinha. Fui eu quem uniu vocês dois e fez esse maldito submarino voar, pra início de conversa.
- E aposto que agora se arrepende!
- Não me arrependo, só gostaria que vocês saíssem menos e terminassem logo essa arrumação.
Dean ficou calado o tempo todo. Nós quase não nos falávamos mais. A única coisa que estava cada vez melhor era o sexo. Talvez ele tivesse aprendido com as vadias que catava na rua. Talvez eu tivesse aprendido com o mestre. Talvez ambos. A única coisa que sei é que o sexo estava melhor do que nunca.
Um dia entrei no submarino com o mestre e ele estava gelado, cheio de pedaços de gelo. Estávamos prontos para partir. Isso que meu irmão e Dean tinham saído para comemorar. Provavelmente seria a minha última transa com o mestre, já que passaríamos a maior parte do tempo voando juntos no submarino que, devo acrescentar, não tinha cômodos.
No dia seguinte entramos eu, o mestre, a monstrinha (afinal, ela ainda era a noiva do meu irmão), meu irmão e Dean. Achei que assim que voltássemos todos ao submarino eu voltaria a ser a garota dele, mas ele continuava tão frio quanto aquela nave.
Foi uma loucura. Voávamos a uma velocidade incrível. Meu irmão e Dean tinham feito um trabalho maravilhoso. Imagino como tenha sido a comemoração deles. Nós quase passamos ilesos por uma ventania. Se a nave tivesse menos gente teríamos passado numa boa, mas cinco pessas era demais para aquela banheira. A monstrinha começou a chorar e reclamar. Tava na cara que meu irmão já não agüentava mais. Largou a menina no meio do nada, chorando. Eu quase senti simpatia por ela. Meu irmão tinha sido muito cruel. Será que Dean seria cruel assim comigo? Será que meu irmão deixaria?
O mestre passou a me tratar como uma desconhecida depois que a nave decolou. Eu estava cada vez mais triste. O único que não me ignorava naquele lugar era o meu irmão. Graças a ele eu ainda não tinha me jogado lá de cima. O mestre estava tentando se aproximar novamente de Dean, mas ele também só conversava com o meu irmão.
Depois de um tempo comecei a sentir uma fúria nos olhos do mestre. Acho que tanto tempo dentro de um lugar fechado não estava fazendo bem a ele. Sugeri ao meu irmão que descêssemos um pouco. Ele adorou a idéia, afinal, estávamos acima de um belo campo aberto. Um pouco de contato com a natureza ia fazer bem, pensei.
Então Dean pousou a nave e descemos todos. Tentei me aproximar do mestre, mas ele me repeliu como se faz a uma muriçoca. Decidi me deitar um pouco na grama. Tirei um bom cochilo. Como era bom finalmente esticar as pernas. Acho que eu também estava ficando louca depois de tanto tempo trancada naquele lugar pequeno. Acordei com Dean deitado ao meu lado, me abraçando. Fiquei tão feliz. Queria beijá-lo e abraçá-lo de volta, mas ele fingiu estar dormindo. Olhei ao meu redor e vi o meu irmão. Só estávamos nós três lá. O mestre tinha sumido. Levantei-me para te rum ângulo de visão melhor e Dean me olhou com aqueles olhos carinhosos de antes. O mestre tinha sumido mesmo.
Peguei a mão de Dean e o conduzi até o submarino (que de submarino só teve o nome), fechei a porta e o beijei. Céus, que saudades eu tinha daquele beijo! O sexo tinha melhorado depois do mestre, mas Dean tinha parado de me beijar. Mas agora não, agora ele me beijava com a mesma paixão dos nossos primeiros beijos, me abraçava como se tivesse medo que eu fosse embora assim que ele me soltasse. Eu me sentia desejada novamente, depois de tanto tempo apenas desejando. Eu não queria saber de preliminares, eu só queria o Dean em mim, estava alucinada. Meu irmão passou a noite do lado de fora, porque Dean e eu precisávamos de muito tempo para matar as saudades. Foi tudo muito diferente. Pela primeira vez eu voei sem precisar do submarino.