sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Linha do tiro

SKETCH 1 – LINHA DO TIRO

PERSONAGENS: Senhora

Assaltante 1

Assaltante 2

Assaltante 3

Uma senhora está no caminho pro ponto de ônibus e encontra um assaltante.

ASSALTANTE 1: Se si buli morre.

SENHORA: Hã?

ASSALTANTE 1: Si si buli morre.

SENHORA: Como é?

ASSALTANTE 1 (irritado): Se se bulir morre!

SENHORA: Aaaah...

A senhora fica olhando pra cara do assaltante, assustada, após ter entendido finalmente o que ele dizia.

SENHORA: O que você quer?

ASSALTANTE 1: A senhora tem um real?

SENHORA: Meu filho, eu só tenho um passe aqui...

ASSALTANTE 1: Num tem um vale não?

SENHORA: Não, eu tenho carteirinha de estudante, só compro passe.

O assaltante pega o passe da mão da senhora, que a havia estendido para ele, olha por algum tempo e devolve.

ASSALTANTE 1: Obrigado.

Ela continua o seu caminho, calmamente até o ponto de ônibus, sem se dar conta do que havia realmente acontecido. Ela chega ao ponto e pouco tempo depois aparecem dois “malas” vindo na sua direção. O menor dos dois já vinha de longe com a mão na cintura, insinuando que estava armado. A senhora olha para eles, não esboçando reação alguma. Quando o assaltante que estava armado chega mais perto dela, o outro se afasta, olhando a situação de longe. Antes que o primeiro dissesse qualquer coisa, ela fala:

SENHORA: Não quero.

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Já disse que não quero.

ASSALTANTE 2: O quê?

SENHORA: Chocolate.

ASSALTANTE 2: Chocolate?

SENHORA: Você quer me vender chocolate, não é?

ASSALTANTE 2: Que chocolate, minha senhora?!!

SENHORA: Bala-chiclete?

ASSALTANTE 2: Não, porra!

SENHORA: O senhor é Hare Krishna, não é?

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Da Igreja Amanhecer em Cristo, essas coisas?

ASSALTANTE 2: Não!

SENHORA: É cego?

ASSALTANTE 2: Cego?

SENHORA: Ta com uma ferida e quer comprar remédio?

ASSALTANTE 2: Chega, caralho!

SENHORA: O quê?

ASSALTANTE 2: Isto é um assalto, não ta vendo?

SENHORA: Onde?

ASSALTANTE 2: Aqui, no ponto de ônibus.

SENHORA: E por que você não faz alguma coisa?

ASSALTANTE 2: Eu?

SENHORA: Chama a polícia?

ASSALTANTE 2: Essa velha é doida! (FALA PRO ASSALTANTE QUE ESTÁ DO OUTRO LADO DA RUA, RACHANDO O BICO)

SENHORA: Quem é doida?

ASSALTANTE 2: Chapadona! Passa logo a bolsa.

SENHORA: Não falei?

ASSALTANTE 2: O dinheiro, minha senhora.

SENHORA: Não quero.

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Já disse que não quero.

ASSALTANTE 2: O quê?

SENHORA: Chocolate.

ASSALTANTE 2: Chocolate?

SENHORA: Você quer me vender chocolate, não é?

ASSALTANTE 2: Que chocolate, minha senhora?!!

SENHORA: Bala-chiclete?

ASSALTANTE 2: Não, porra!

SENHORA: O senhor é Hare Krishna, não é?

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Da Igreja Amanhecer em Cristo, essas coisas?

ASSALTANTE 2: Não!

SENHORA: É cego?

ASSALTANTE 2: Cego?

SENHORA: Ta com uma ferida e quer comprar remédio?

ASSALTANTE 2: Chega, caralho!

SENHORA: O quê?

ASSALTANTE 2: Isto é um assalto, não ta vendo?

SENHORA: Onde?

ASSALTANTE 2: Aqui, no ponto de ônibus.

SENHORA: E por que você não faz alguma coisa?

ASSALTANTE 2: Eu?

SENHORA: Chama a polícia?

ASSALTANTE 2: Essa velha é doida! (FALA PRO ASSALTANTE QUE ESTÁ DO OUTRO LADO DA RUA, RACHANDO O BICO AO QUADRADO)

SENHORA: Quem é doida?

ASSALTANTE 2: Chapadona! Passa logo a bolsa.

SENHORA: Não falei?

ASSALTANTE 2: O dinheiro, minha senhora.

SENHORA: Não quero.

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Já disse que não quero.

ASSALTANTE 2: O quê?

SENHORA: Chocolate.

ASSALTANTE 2: Chocolate?

SENHORA: Você quer me vender chocolate, não é?

ASSALTANTE 2: Que chocolate, minha senhora?!!

SENHORA: Bala-chiclete?

ASSALTANTE 2: Não, porra!

SENHORA: O senhor é Hare Krishna, não é?

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Da Igreja Amanhecer em Cristo, essas coisas?

ASSALTANTE 2: Não!

SENHORA: É cego?

ASSALTANTE 2: Cego?

SENHORA: Ta com uma ferida e quer comprar remédio?

ASSALTANTE 2: Chega, caralho!

SENHORA: O quê?

ASSALTANTE 2: Isto é um assalto, não ta vendo?

SENHORA: Onde?

ASSALTANTE 2: Aqui, no ponto de ônibus.

SENHORA: E por que você não faz alguma coisa?

ASSALTANTE 2: Eu?

SENHORA: Chama a polícia?

ASSALTANTE 2: Essa velha é doida! (FALA PRO ASSALTANTE QUE ESTÁ DO OUTRO LADO DA RUA, RACHANDO O BICO AO CUBO)

SENHORA: Quem é doida?

ASSALTANTE 2: Chapadona! Passa logo a bolsa.

SENHORA: Não falei?

ASSALTANTE 2: O dinheiro, minha senhora.

SENHORA: Não quero.

ASSALTANTE 2: Hã?

SENHORA: Já disse que não quero.

ASSALTANTE 2: O quê?

SENHORA: Chocolate.

ASSALTANTE 2: Chocolate?

SENHORA: Você quer me vender chocolate, não é?

ASSALTANTE 2: Que chocolate, minha senhora?!!

SENHORA: Bala-chiclete?


Texto baseado em fatos reais e no conto homônimo de Marcelino Freire.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Declaração (de desamor) a um canalha

Monstro de duas cabeças, múltiplas personalidades. Tal qual a hidra, corta-se uma e encontra logo outra para substituí-la. Narciso deturpado, que esconde seu egocentrismo por trás da máscara da baixa auto-estima. Vil manipulador que por intermédio da arte aproveita-se dos seus dotes – talvez os únicos que possua – para alcançar seus propósitos impróprios. Besta fera enganadora que conquista a tal ponto que mesmo te odiando é impossível não te querer bem. Presença contaminadora da qual é impossível desfazer-se sem muito esforço, mas que se desfaz. E quando vai embora o amor e vai embora o ódio, resta apenas o nada.

sábado, 19 de setembro de 2009

Epifania

Ela terminou de assistir a um filme e sentiu a necessidade de dançar. Colocou uma sonata de violoncelo e começou a correr e girar pela casa. Correu por todos os cômodos, sentindo-se louca, ou agindo como uma. Correndo e dançando desfez-se do vestido. Jogou-o longe. Continuou correndo pela casa, girando e pulando cada vez mais rápido, cada vez mais longe. Tirou também a calcinha e jogou no quarto. Continuou correndo pela casa, sem saber o que queria com aquilo. Talvez desfazer-se de toda a energia que possuía acumulada dentro de si. Parou no meio da sala e girou continuamente até ficar tonta. Depois girou para o lado contrário e ficou tonta mais uma vez. Parou de girar. Parou de correr. Jogou-se no sofá para recobrar a respiração. Agarrou-se no edredom e respirou fundo, até ter condições de se levantar novamente. Levantou-se, ainda agarrada no edredom, apanhou o vestido largado no chão, e largou os dois em cima da cama. Apanhou a calcinha jogada no quarto e levou até o banheiro. Tirou o sutiã e largou no chão. Foi para debaixo do chuveiro. Ligou-o e desfez-se de toda a adrenalina que havia conseguido. Sua epifania acabara.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Auspicioso

Me pergunto se existe algum estudo antropológico realizado nas filas dos sanitários. Lá acontece uma interação social que você não encontra em nenhum outro lugar. Até eu fico simpática em fila de banheiro.
Que as novelas exercem grande influência na vida dos brasileiros não é nenhuma novidade, eu mesma já cansei de ouvir pessoas ao meu redor falando "tic" ou "rarebaba" e afins. Mas quando alguém te diz na fila do banheiro onde há um submarino entalado na privada que ninguém está entrando lá porque ele não está muito "auspicioso", sinto que esse fato merece ser mencionado.

domingo, 6 de setembro de 2009

Acho que preciso me apaixonar

Se a luz do sol
Já não é suficiente pra me acordar
Acho que preciso me apaixonar
Se o cantar dos pássaros de manhã
Só serve para me irritar
Acho que preciso me apaixonar
Se nenhuma música
É capaz de me relaxar
Acho que preciso me apaixonar

Mas se olho para os lados
E meu coração não encontra
Alguém para se entregar
Eu entrego a minha boca
Eu entrego os meus braços
Eu entrego o meu corpo
Sem nunca me apaixonar

Quando o tédio nas conversas
Paira no ar
Sinto que preciso me apaixonar
Quando a lua cheia
É só uma bola no ar
Sinto que preciso me apaixonar
Se até meus amores
Só conseguem me irritar
Sinto que preciso me apaixonar

O mundo está cheio
De homens e mulheres
Com os braços estendidos
Com os lábios entreabertos
Com o corpo estremecido
Mas não encontro
Em nenhum deles
O coração
Para me apaixonar

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Voltei

Às vezes tenho vontade de permanecer incógnita. Até encontrei um lugar para isso, mas não é como aqui. Aqui me sinto à vontade, em casa. Em uma casa só minha, onde ninguém me julga. O que não chega a ser verdade, já que há muitos juízes na minha casa. Muitos nem mesmo compreendem o que digo. Aliás, a maioria não compreende. Sejam juízes ou platéia. Mas é um risco que se corre. Nenhuma paixão está imune, nem mesmo à literatura. Infelizmente, não posso ignorar os meus juízes, mas resolvi não mais me curvar diante deles. Mais uma vez dou a minha cara a tapa. Não tenho porque me esconder. Não fiz nada errado. A hipocrisia não vai me vencer. Minha literatura não é criminosa. Por isso me liberto. Só assim posso me compreender melhor. Só escrevendo sobre mim que consigo me reconhecer. E escrever sobre mim não é fazer um diário, é externar todos os personagens que existem no meu peito, na minha mente, nos meus olhos. O oposto da vida é a morte e não cabe a mim assassiná-los. Todos fazem parte de mim e ao pari-los volto a me sentir viva.

domingo, 16 de agosto de 2009

Suzane

Suzane era uma mulher que não gostava de homens. Não apenas sexualmente, ela literalmente desprezava todos os “exemplares” do sexo masculino. Até mesmo os não tão masculinos. Talvez por decorrência de algum trauma na infância do qual ela não se recordava de maneira alguma. Talvez ela se sentisse injustiçada em uma sociedade patriarcal, ainda com tantos estigmas do machismo.
O fato era que ela, desde que se recorda, sempre evitou ter homens ao seu redor. Estudou em escolas só para garotas, na universidade procurou fazer um curso onde a maioria dos estudantes fosse feminina. E dessa maneira foi seguindo adiante com a sua vida e nunca sentiu que isso fosse um problema até que ela se deparou com um sentimento inédito: a necessidade de se tornar mãe.
Mas não bastava adotar uma criança. Ela precisava senti-la crescendo em seu ventre, se alimentando junto com ela, nessa simbiose perfeita que é a gravidez. Mas a ideia do ato sexual com um homem a enojava, de maneira que mesmo uma inseminação artificial parecia-lhe algo repugnante.
Suzane resolveu ceder, pois o amor que sentia pelo seu filho já superava a sua aversão a tudo relativo ao cromossomo Y. De maneira que quando o seu filho nasceu, ela olhou pela primeira vez com ternura para um ser do sexo masculino.

sábado, 11 de julho de 2009

Player man

If you don’t love me
Why keep you playin’ with my heart?
I would give you the sun and stars
Though I know you won’t accept
‘Cause you don’t want my love
But you don’t let me go away
Make me smile everyday
That’s why I’m filled with hope

All my friends tell me to give up
But they know you would be
The right man for me
If you just let me love you
Oh my player man
Every night is sad without you
My cold feet don’t let me forget
That the man I love won’t love me back

If I just knew when I first met you
That you would make my heart beat so strong
I would have hugged you so you’d never
Ever ever go away
Oh my player man

That’s just how much I love you
Write a letter everyday
And burn it right away
‘Cause just as Billie I can’t admit
How hard will my heart beat
When you call my name

And in the empty crowd
I keep foolin’ myself
Pretending not to care
Pretendind to forget
A player man that makes me dream
Of a life I cannot live
A life where you would love me
And let me hug and kiss you
Even under the fiery sun

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mentolado

- Caralho. Eu pedi dois pacotes de camisinha pra completar dez reais na farmácia e o cara me manda Blowtex de MENTA! Puta merda.
- Puta. Que bosta mesmo.
- Foda.
- Arde.
- Só porque eu pedi spray pra garganta. Ele deve ter pensado que caso eu fosse fazer um boquete faria bem pra garganta também.
- Uma vez meu namorado botou. No começo era agradável, mas aí começou a arder e só parou de arder no outro dia.
- Que merda. E comprei logo dois pacotes porque a farmacia só entregava se completasse dez reais.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Gripe suína

PeggyDay diz:
aaaahm
ehehehhe
e eu ia te dizer algo e esqueci
merda
aaah
to com medo da gripe suina
o pior eh q parece q vai fechar td
e eu tenho q levar o ban no veterinario

"Violets are blue" diz:
afe ;P

PeggyDay diz:
na sua opiniao o veterinario vai ta aberto?

"Violets are blue" diz:
nao faço a menor ideia
se vai fechar tudo é de se supor que o veterinario tb
no maximo ficarao abertos so os hospitais
ninguem pensa nos animaizinhos ;~~

PeggyDay diz:
=((((
pois eh
por isso q o porco ficou gripado
humpf

"Violets are blue" diz:
huhuhuehuehuhuehue
cara
isso vai pro meu twitter, ehueuhuh
aliás
nao
tem que ir pro blog

PeggyDay diz:
heiehiehiehie
total!

"Violets are blue" diz:
heuuehuehuehuheuhuhuhe

sábado, 20 de junho de 2009

Mais uma dos contos de fadas desvirtuados

Sexta-feira pela manhã caminho em direção à universidade, carregada com duas bolsas, três bandejas e duas garrafas cheias de químicos em uma mão e um misto quente na outra. De repente vejo no horizonte o príncipe encantado a galopar em minha direção. "Não há de ser nada, apenas um transeunte matinal". Mas ele me aborda e pergunta se eu tenho um real. Respondo que não - e era verdade, talvez 0,50, no máximo! - e ele me pede para entregar-lhe a minha bolsa, não por cavalheirismo, mas por marginalismo, mesmo.
A minha bolsa com minha câmera? Ou a minha bolsa com minha carteira, pinças para utilizar na aula, agenda, mp4, óculos, enfim, minha vida? Ele acrescenta que não devo correr e penso "hum, boa idéia, ops, ideia, que agora não tem mais acento - ah essa reforma ortográfica...". Grito "dou não!" e corro então de volta para casa, mas o cavalo era mais rápido que a pata choca carregada aqui. Dou meia-volta e ponho-me a correr na direção oposta. Alguns metros depois constato que ele não está mais no meu encalço e paro de correr. Engolindo o coração de volta, chego à triste conclusão de que não se fazem mais contos de fadas como antigamente.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Desvirtuando Shakespeare

para Samuel

- Oh, Romeu, onde estás que não me atendes?
- Estou aqui embaixo, bela Julieta!
- Romeu, amor meu, como queria que estivesses aqui ao meu lado nesse instante, mas demoraste muito, não tarda a hora da cotovia cantar.
- Então joga logo as tuas tranças!
- Tranças, Romeu?
- Sim, antes que os sete anões voltem e tu adormeças novamente.
- Ô Romeu, você tá me confundindo com outra?
- Julieta, preciso bater a real contigo. Gosto muito de você, mas não dá mais pra namorar escondido.
- Estás pedindo para que fujamos juntos?
- Ficou louca? Pra sermos perseguidos pelo resto da vida? Olha, não é nada contra você, mas não dá pra namorar com seu pai embaçando o tempo inteiro, entende?
- Então você está me largando?
- Você merece um cara melhor do que eu, alguém que seus pais aceitem.
- Mas é você que eu quero, ó, Romeu!
- E eu também preciso de alguém menos complicada. Lá nos contos de fadas têm umas princesas super gente fina...
- Contos de fadas?
- É, e lá também tem uns príncipes que enfrentam dragões e tudo mais.
- Príncipes?
- É! Então... estamos quites?
- Uma porra. PAIÊEEEEE!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Infame

Rosas são vermelhas
Violetas são azuis
Bigulinho
Bigulão
Sai de cima do telhado.

Simone

- Cara, é triste, mas a Simone se fudeu bastante.
- Foi? O que houve?
- No relacionamento aberto dela com o Sartre.
- Tadinha...
- Ah... ela ficou velha.
- As mulheres sempre se fodem nos relacionamentos abertos.
- Ele ficou mais famoso que ela.
- Frida também se fodeu, né.
- Ele começou a pegar várias...
- Bom, ela ficou mais famosa.
- Mas assim, eu li a biografia Sartre Simone. Mais da Simone que dele. Ela era muito mais foda que ele, né.
- Ela era mais foda que ele?
- Ele pra mim era um velho babão.
- Uhum. Foda...
- Muito mais.
- Homens sempre parecem velhos babões. Constatei muito disso transando com meus professores. Sempre decepcionantes.
- É... o Sartre era um figura bizarra. A Simone era sensacional. Vou levar o livro que tenho pra você.
- Tá!
- Ela era genial. Obviamente no amor não se dava muito bem. Mas também... quem precisa se dar bem no amor, né?
- Heehehehhe... sei lá.
- Bando de maricas escrotos.
- Eu sou uma romântica de merda. Eu cresci vendo filmes de mulherzinha, não consigo evitar.
- Eu também, eu também.
- Por mais que eu saiba que são um bando de babacas, eu sempre quero me apaixonar.
- Eu também, mas é justamente esse o ponto, se apaixonar. É saber que não vai durar. Zero.
- É.
- É aqui, agora, 6 meses, pronto.
- Exato.
- E isso me deprime também.
- 6 meses e pronto.
- Porque as pessoas dizem...
- Um amor lancinante.
- Ah, depois da paixão, vem o amor.
- Por 6 meses. Ah cara...
- E pra mim nunca veio o amor.
- Eu não sei viver sem paixão. Porque acaba a paixão e os defeitos daquela pessoa passam a me incomodar demais para uma convivência.
- Exato. Pra mim o mesmo. É uma merda, não dá pra viver sem paixão. Pelo menos até agora.
- Aí a questão de viver separado pra mim é só o fato de que os defeitos vão demorar um pouco mais pra aparecer, pra incomodar.
- Cara... esse revival que tive foi ótimo. Porque realmente, eu percebi como é bom morar em casas diferentes.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Migalhas

Até masoquismo tem limites. Mas aqui é tudo mais cruel, mais explícito. O mundo moderno vive deixando migalhas para as nossas ilusões, masoquistas, persistentes. Me pergunto por que as pessoas são tão diferentes. Não compreendo os que não amam, os que não sofrem, os que não se apaixonam e desapaixonam na velocidade da luz, os que não são masoquistas como eu. Que se isolam atrás de uma casca e quando a luz bate diretamente nela, vislumbram apenas sombras e continuam impossibilitados de viver o presente, tendo em mente apenas pálidas ilusões do passado ou os sonhos do futuro.
Mas eu muitas vezes os invejo, pois mais cruéis são os sonhos que estão sempre tão perto e tão longe. Palpáveis, mas inatingíveis. Que te tocam, te beijam, mas não sonham contigo. Exceto nos teus sonhos, onde cada migalha representa uma esperança. Mas ao amanhecer os pássaros já passaram e perdes o caminho de volta e então, na procura de um abrigo, machucas os pés nas pedras e o rosto nos espinhos das árvores.
No fim dessa jornada retornas ao teu casulo, que não é tão duro quanto a casca dos outros, mas serve para vislumbrares também algumas sombras enquanto as chagas que acumulaste cicatrizam e te preparas para mais uma vez sair em busca de migalhas ao entardecer.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Classificados

Vendo ou troco coração por fígado ou pulmão. Interessados tratar com Dona Baratinha, que cansou-se da desilusão.

Untitled

It is still quite clear in my mind the times when I had near me the ones that were enough. I didn’t realize that after that year, my life would never be the same. Okay, trough our lifetime we have a lot of changes, but this was the biggest I had so far. School years were over and in a moment I saw myself living the same mediocre life of always, while there were no more childhood friends or even the ones to cherish my world.
Sad was the first literature class I had this year. The same teacher I had last year and in my eleven’s, entered the room and I felt completely nostalgic. He was the same, and it was enough to remind me that I had failed. Saturday night, here comes my remainder childhood friend. Let me guess: I’m the first one? Of course you were, you always are… Where’s the vodka? Take the ice and the glasses. Sure, let me put some music. She’s no longer here.
Oh holy night that brought them back for such a short time and reminded me that I can’t live so far away from them; oh profane world that made such an evil separation. Where will I find those happy days? Then the three late ones arrived. Hugs, kisses and strident little screams for the meeting time. So we came inside to listen to the same old soundtrack and have the same behaviour. And it hasn’t changed, after all – thank God.
I can’t remember if I considered myself a happy person in those days… We rarely do. But I was glad to know that I had with me irreplaceable friends. Unfortunately, it has become a problem – now that I really need to substitute them for people who live near me. She took her brother’s digital camera and it was such a party! We forgot everything and had fun, took pictures, danced – as usual – took pictures, talked, took pictures, drank, took pictures and meanwhile, I was looking for something nice to wear.
Fortunately I don’t do this anymore, but we have this bad habit of complaining about this city. If it isn’t because it’s small, it’s because of the weather or just because we have few places to go (and one more time I thank God for that). We make our parties, and one of my best was my eighteen year old party: we did everything we were used to, but with more food, more drinks and a little more people in the house, but they didn’t matter. At that time, two of them weren’t talking to each other, and for my happiness, they were the first ones to come. The bell rang and the two other ones came with their Happiness Kit. It surely wasn’t the most expensive present I’ve ever won, but it was one of those I most liked. In fact, I’m using a part of it right now.
Our last hope is technology. We still can talk to each other every week, see each other trough pictures, but that’s all. Another party, just in three months. I know it isn’t that long, but as long as I don’t find something to trick me here, every week will be too long. I don’t know what I’m going to do; all I know is that I have to study. To live there or here, I need to go to college and need to find my path again so that I can meet them again, no matter where or when.
The radio was on while I had been waiting for my drink and a pop music was playing. It reminded me of one of those days where we used to take pictures and drink and dance and talk and laugh while I was learning how to do a nice make-up.

Metalinguagem

O barulho das chaves me irritou por todo o caminho. Apressei o passo até o portão e as retirei da bolsa. A continuação é óbvia, abri o portão, ultrapassei o jardim, o quintal e abri a porta dos fundos. Entrei na casa escura, sem sentir a necessidade de acender as luzes; tateei um pouco até o caminho do sofá e nele joguei meu corpo. Fechei os olhos e ela veio até mim, meio confusa, cambaleante e insegura. Chamei-a pelos nomes errados e obtive resultados pouco confortantes. Resmunguei palavras de irritação e ela foi embora ainda mais discretamente que chegou.
À noite deitei-me em minha cama e no espaço de tempo entre a tentativa e o sonho pude sentir uma nova aproximação. Percebi sua preferência pela amiga escura, e tímida como ela. Suas ações já não eram tão discretas, e ainda que por um curto tempo e com resultados do mesmo tamanho, apelidei-os de satisfatórios (a verdade é que eu havia adorado).
Agora clamo pela presença dela, mas mostra-se tímida mais uma vez. Mais uma vez reclamo dos resultados insatisfatórios e esqueço que mesmo escondida ela ainda toca meus cabelos. Ouço lamentações sussurradas se afastando e sabendo que serei incapaz de continuar, deito o lápis. Aguardo ansiosa pela chegada da noite, para saber se mais uma vez ela virá ditar suas canções de ninar aos meus ouvidos.

terça-feira, 2 de junho de 2009

BASEADO EM FATOS REAIS: Sinceridade

- Cara, eu acho que tô ficando cada dia mais burra...
- Eu também acho... Não! Eu também acho que eu estou ficando mais burra.
- Ah tá...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Rebimboca da Parafuseta

Uma mulher chega em seu carro na oficina.
- Boa tarde.
- Boa tarde - responde o mecânico, vindo na direção dela.
- O meu carro tá fazendo um barulho estranho, o senhor pode dar uma olhada?
- Claro - responde o mecânico abrindo o capô do carro.
Enquanto ele está olhando o motor um barulho enorme é ouvido. A mulher, que estava olhando para a rua, se vira de súbito e pergunta assustada:
- Nossa senhora, o que foi isso?
- Foi só a Rebimboca da Parafuseta.
- O quê?
- A Rebimboca da Parafuseta.
- Meu senhor, você tá me tirando por alguma idiota?
- Não senhora, por que isso?
- Não é porque eu sou mulher que você vai me enrolar não, tá? - ela fecha o capô bruscamente e entra no carro - Rebimboca da parafuseta, essa é boa! - e arranca para fora da oficina.
O mecânico a vê ir embora intrigado.
- Que mulher doida.
Então ele olha para baixo e diz:
- Tá vendo, Rebimboca? Me fez perder uma cliente!
Nesse instante uma cadelinha vira-lata se encolhe ao lado de um monte de calotas espalhadas no chão.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Indiana Thaïs

Cara, eu tô sonhando di-re-to com um danado de um templo escondido em uma casa enorme, que tem um dono malvado, laser e o caralho a quatro, aí quando eu chego no santuário tenho que escolher: ou fujo do lugar por um túmulo falso, ou sigo até o templo escondido pela passagem secreta que tem em um depósito, despensa, sei lá. Mas sabe o que é foda? Toda vez que a aventura termina eu sempre me dou conta de que deixei as minhas coisas na casa do vilão. O que será que isso quer dizer?

terça-feira, 26 de maio de 2009

Figuras notáveis dos bares noite afora

  • A solteirona amazona: sai para caçar (geralmente em bando).
  • O boêmio fiel (ou bat-boêmio): comparece (quase) todos os dias, na mesma bat-hora, no mesmo bat-local.
  • O viajante cósmico: o tempo, o mundo, as pessoas, tudo é motivo para uma conversa existencialista.
  • O poeta punheteiro: tem sempre um versinho na ponta da língua para xavecar uma mulher moderninha.
  • O maconheiro solidário: sempre te chama pra fumar um.
Quais as figuras notáveis que você conhece?

O mistério da autofecundação humana

Acordei e fui no banheiro fazer xixi. Ao tirar a minha calcinha me deparei com uma coisa estranha: havia sangue nela. Isso pode parecer uma observação banal, mas eu já tinha menstruado esse mês e não tomei pílula do dia seguinte nem nada do tipo. Fiquei assustada e pensativa.
Resolvi assistir um pouco de televisão pra desopilar. Liguei e um plantão estava no ar. Uma repórter dizia que a mudança de clima tinha afetado o aparelho reprodutor de muitas mulheres no mundo, que afirmavam ter engravidado sem relações sexuais. Algumas em êxtase, certas de que era uma obra do Espírito Santo, outras confusas e desesperadas, sem saber o que fazer. A repórter disse que o governo brasileiro ia averiguar o caso para saber se essas poderiam realizar um aborto legal, já que se fosse confirmada a autofecundação, a taxa de natalidade no país poderia aumentar muito, chegando a níveis insustentáveis.
Desliguei a TV. Aquilo tudo era muito bizarro, mesmo para mim. De fato eu não tinha feixo sexo no último mês e aquele sangue era muito esquisito. Senti então uma cólica atordoante, corri até o banheiro e vomitei. Depois me sentei no vaso e mais sangue jorrou. Eu abortei da mesma forma que engravidei: do nada.
Me recompus: tomei um banho, escovei os dentes, coloquei uma roupa limpa e fiz um miojo para o almoço. Me acomodei na minha rede e liguei novamente a TV. O plantão ainda estava lá. A repórter parecia assustada. Dizia que as mulheres que estavam grávidas pela autofecundação começaram a abortar espontaneamente uma a uma. Estudiosos de diversas áreas de conhecimento estavam ao seu lado. Um psicólogo dizia que se tratava de um delírio coletivo de mulheres estéreis histéricas. Um ufólogo afirmava que os extraterrestres tinham realizado uma experiência com fins de pesquisar uma possível reprodução da espécie em caso de invasão e os biólogos continuavam afirmando que era a mudança diária do clima que havia feito os óvulos se subdividirem mesmo sem ter sido fecundados. Defendidas as teorias, a repórter, ainda confusa e assustada (provavelmente com medo de se autofecundar também), se despede, prometendo trazer novas informações.
Aquele dia estava todo muito louco. Resolvi voltar para a cama na esperança de ter outro sonho erótico.

domingo, 24 de maio de 2009

Cartilha do sexo

- Amiga, eu preciso fazer sexo.
- Namora o meu irmão.
- Não, obrigada. Acho que vou criar uma cartilha. "Passo a passo para transar comigo".
- Hahahahahaha
- Número um: leia. Mas leia muito. E não vale ler Paulo Coelho ou Dan Brown. Leia beatniks, russos, japoneses. De preferência coisas que eu nao tenha lido, para que você possa me trazer algo novo. Número dois: é obrigatório gostar de cinema. Se for cineasta melhor ainda, cinco estrelinhas. Mas não vale ser metido, não suporto gente que baba o próprio ovo. Número três: tem que gostar de música boa. Jazz, bossa nova, blues e por aí vai. Mas tem que ter uma tendência pras coisas antigas, porque eu sou uma mulher do século passado. Número quatro: tem que gostar de crianças e animais. Necessariamente nessa ordem. Número cinco: bom humor é indispensável. Não aguento homem moribundo. Hum, o que mais? Só cinco é pouco, não sou tão fácil assim, heuehuheuheuh.
- Heiehiehiehie. Menina. Assim você não vai fazer sexo nunca.
- Auhuahuahuahuahuhauhauhauhuahuahuaha.
- Ó, minhas regras pra fazer sexo.
- Diga mermo.
- Tem que ter pau bonito.
- Hauhuahauhauhuaha.
- Saber dedar. Usar camisinha. Chupar bem e com vontade. E ter todos os dentes. Ehiehiehieheihie. Aí já tá bom demais. Eheiheiheihei.
- É mesmo, esqueci de mencionar que tem que usar camisinha!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Minha namorada

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porquê
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.

Vinicius de Moraes e Carlos Lyra


Eita que esses românticos dão um trabalho danado...

terça-feira, 19 de maio de 2009

Réquiem

Hoje eu sinto a necessidade de prestar uma homenagem aos mortos. Muita coisa aconteceu nesses últimos tempos, algumas secretas, divido apenas com os mais próximos, outras não são segredo nenhum, estão aí, visíveis, para quem quiser saber. O fato é que a morte mostrou-se excessivamente ameaçadora e presente este ano. Dessa maneira ela me obriga a pensar "pra que tudo isso"? Por que me preocupar com tantos problemas pequenos? Mas agora penso que eles são necessários para que os grandes problemas não me engulam.
Camila, Igor... Eu não tinha proximidade com nenhum dos dois. Mas de repente achei tudo tão frágil ao meu redor. E me entristeci com a ausência deles na vida de todos que os queriam bem. Lembrei-me então do meu irmão. O primeiro contato que tive com a morte. Eu o olhava no caixão, intrigada, me perguntando por que os mortos tinham as sobrancelhas raspadas. Só anos mais tarde me dei conta que isso não era uma prática rotineira, mas necessária no caso dele, porque as suas tinham sido queimadas na explosão.
Sem contar das vezes que eu, criança, me debulhei em lágrimas ao perder cachorrinhos, gatinhos, pintinhos e depois, já não tão criança, a minha porquinha-da-índia.
Uma vez me perguntei se as pessoas sentiriam a minha falta quando eu morresse. Uma bobagem, descobri que sentiriam.
Existe também a morte dos idosos, tão triste quanto a dos jovens, porque a cada aniversário eles a sentem cada vez mais próxima. O pai da minha mãe, já no final da sua vida, sempre que me via, chorava. Tão terno. Dizia com frequência que era a última vez que me via, o último aniversário, o último dia dos pais... A gente tende a banalizar esses presságios, mas de fato, chega um momento em que eles se mostram reais.
Esse ano tive conhecimento de uma morte diferente. Morte, ainda assim. Ela transformou muita coisa dentro de mim e mais ainda ao meu redor. Ela tem mesmo esse poder de modificar tudo. De fazer a gente pensar na vida. Já que afinal, me perdoem a falta de originalidade, a única certeza da vida é a morte.

sábado, 16 de maio de 2009

Abro os olhos

Impossível fugir a essa dura realidade
Ne
ste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

(O dia da criação, Vinicius de Moraes)



Abro os olhos. A enxaqueca passou. Ainda bem. Esse remédio é mesmo muito bom. Demoro ainda uma meia hora para criar coragem e me levantar da cama. Tenho medo que ela apareça novamente.

Levanto-me e vou até o espelho. Decrépita, como já era esperado. Pego o pote com algodão e o demaquilante para tirar a maquiagem preta dos olhos. Um pouco mais apresentável, apesar dos cabelos indomáveis.

Meu estômago se revira, mas não tenho vontade de comer. Na geladeira tenho umas goiabas do tamanho de um mamão. Pego uma dessas, passo uma água e a mordo. Vou para o computador. Ainda é cedo, ele não deve estar lá. Aliás, já fazem alguns dias que não o vejo. No fim das contas não faz diferença, a gente quase não se fala mesmo.

Saio do computador, estou com vontade de assistir um filme. Meu DVD não pega. Droga, só fazem três meses que o comprei, será que essa porcaria já quebrou? Bom era no tempo da minha avó, que as coisas duravam uma vida inteira. Meu toca-discos era dela. Mas fazer o quê, no tempo da minha avó não tinha DVD...

Assisto a outro filme, um que estava no meu mp4. Pelo menos o USB do DVD ainda funcionava. Esse filme não tinha legenda, mas até que consegui entender boa parte do que diziam. Terminado o filme meu estado de espírito se manteve o mesmo. Voltei para o computador, mas ele ainda não estava lá. Será que viajou?

Fui para a sala ler um pouco, mas a fome bateu violenta. Com preguiça de viver, engatinhei até a cozinha, mas antes de chegar à geladeira deitei-me no chão, frio. Lembrei novamente dele e fiquei excitada. Apesar de estar menstruada, me masturbei pensando nele. Mas lembrei-me dos vizinhos, olhei pela janela da cozinha e constatei que ninguém me observava. Senti-me patética. Deitada no chão da cozinha, quis chorar, mas não consegui.

Que boba. Não aprendeu nada em todos esses anos? Você nem ama esse homem. E mesmo se amasse, até isso passaria um dia. O problema é que você ama a ideia dele. A ideia de amar, sendo correspondida ou não. Pois bem, vou te dizer uma coisa: você não é mais nenhuma adolescente. Por mais que queira ser, o tempo só avança.

O tempo só avança. Sinto-me na obrigação de não ficar mais parada. É sempre assim. E provavelmente vai ser até o final da minha vida. Afinal, é assim mesmo que eu sou. Melhor começar a fazer o meu almoço.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

BASEADO EM FATOS REAIS: Foi engano

Chego na porta de casa e o telefone toca. Abro a porta, apressada, a chave prende, agonia maior do mundo, entro e atendo.
- Alô?
- Bom dia, é do Banco do Brasil?
- Não.
- O telefone é 3341-4841?
- Não.
- Ah, tá bom, desculpe.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"You are stardust"

Eu sempre penso no conceito de alma gêmea. Aliás, a alma em si me intriga. Um dos motivos pelos quais a "bilogia" "Antes do amanhecer" e "Antes do pôr-do-sol" me fascina é que eles têm basicamente as mesmas impressões do assunto que eu. Mas não vou fazê-lo assistir aos filmes para descobrir quais são (apesar de achar que deveria).
Em primeiro lugar, se a alma é imortal, então as almas de todas as pessoas que já morreram, vivem ou ainda vão nascer já existem em algum lugar do universo, certo? Digamos que não, que na verdade o que existe é a reencarnação. Eu morrerei e outra pessoa "herdará" a minha alma. Mas se hoje em dia existem muito mais pessoas no planeta do que existiam há 2000 anos, de onde vieram todas essas almas? Estariam estocadas? Ou será que as almas atuais são fragmentos das almas dos nossos antepassados? Isso poderia ser uma explicação para o fato de não existirem outros Da Vincis perambulando por aí...
Se for assim então a minha alma gêmea está fragmentada em diversos pedacinhos, assim como a minha própria. Menos cruel. Mas se ela for única, morar no Afeganistão e tiver 68 anos? Eu devo então me conformar em viver eternamente como uma cuia, sem tampa? Cruel, não é mesmo? Falo de almas gêmeas porque sou uma eterna romântica, mas acreditar mesmo, eu acredito no amor de Vinícius. "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure".

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Samba e amor + Samba do grande amor

Eu faço samba e amor até mais tarde.
Mentira.



Fodido
My hair is completely fodido
My shampoo will be despedido
'Cause I'm completely blowzy!

Paródia infame de Perdido.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dizem que quem vive de passado é museu.
Ainda bem que meus pais me ensinaram a apreciar uma boa obra de arte.

Real e inusitado

Estava sentada na rede lendo Kafka à beira-mar do Murakami quando minha mãe vai até o terraço me alertar:
– Não fique aqui até tarde, porque o Miramar já não é mais o mesmo!
Respondo com uma afirmativa e continuo a ler. Pouco tempo depois a campainha toca. Quem seria tão sem noção a ponto de bater na casa dos outros a essa hora sem avisar? Fico logo apreensiva. Madona corre para latir ao muro. Avisto uma mulher baixa e magra e me aproximo.
– Cala a boca, Madona! – dirijo-me então para a mulher – Diga?
Ela começa a explicar a sua odisséia. Eu me controlo para prestar mais atenção no que ela diz do que na fedentina que exalavam as suas axilas. Disse-me que tinha acabado de sair do Juliano Moreira e estava precisando de dinheiro para completar o da medicação e para isso estava vendendo um par de sapatos de salto (ou seriam sandálias? Ou tamancos? Eram fechados na frente e abertos atrás), numa cor verde-musgo, que tinham sido doados pela igreja.
Hesitei por um instante, com medo de serem frutos de furto, mas entrei em casa e pedi à minha mãe os quatro reais que ela cobrou. Minha mãe não tinha trocado e o sapato (sandália ou tamanco) acabou ficando por cinco. A mulher me agradece imensamente e vai embora. Levo a nova aquisição para a sua dona de direito, mas não sem antes trancar-me cuidadosamente dentro de casa.
E o sapato? Foi para um brechó por cinco reais.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Empatia

Eu tenho o costume de sentir o que se passa dentro das outras pessoas. Alguns diriam que trata-se de empatia, mas creio ser algo maior, mais profundo. Isso ocorre com mais frequência quando os sentimentos envolvidos são alegria, tristeza ou frustração. Poderia a frustração ser considerada um sentimento? Ou apenas um estado de espírito? O fato é que ela me penetra. Quando estava voltando para casa hoje passei por uma garotinha que conversava com seu pai mototaxista na porta de casa. Ela estava alegre, mas quando passei por eles só escutei "tá vendo, eu disse que ia derrubar, agora nem adianta pegar que não dá mais pra comer!" Me virei e vi um pote no chão e várias rosquinhas de chocolate desperdiçadas. A menina olhava para ele com um sorriso amargo no rosto dizendo "tudo bem, não tem problema" e isso esmagou o meu coração. Ela teve que admitir a derrota. E eu lembrei de todas as frustrações parecidas com essa que tive na minha infância.
Certa vez conheci um rouxinol que havia se desviado muito do seu curso por causa de um avião que julgava ser a Ursa Maior. Seu canto, tão lindo, na minha janela me comoveu. Tive a certeza de saber o que se passava em seu coraçãozinho. Convidei-o a entrar na minha casa e conversamos por horas a fio. Éramos muito parecidos, apesar dele ser uma ave e eu um mamífero. Quando o dia se aproximou precisamos nos despedir. Eu não resisti e pedi um beijo. Vi que bico e boca podem sim se beijar. A despedida foi terna e sem promessas, mas passei, todas as noites a partir daquela, a abrir a janela na esperança de ouvi-lo cantar mais uma vez. Mas ele não voltou. Não sei se encontrou o caminho de casa ou passou a frequentar outras janelas, o fato é que, debruçada no parapeito, eu desejava profundamente que outro avião trouxesse de volta o meu rouxinol desorientado.
Talvez eu tenha me enganado quanto à menina, talvez ela realmente não ligasse para o fato das rosquinhas terem caído no chão, talvez o meu rouxinol também não estivesse tão triste quanto eu julgava, talvez a minha aparente empatia seja apenas uma projeção dos meus sentimentos nas outras pessoas; ou aves.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mocinhos e vilões

Eu estava sentada em um banquinho ao lado de um restaurante, escrevendo na minha agenda, quando chegou perto de mim uma senhora baixinha, gordinha, de olhinhos puxados, com uma expressão de imensa tristeza. Sorri, mas ela, tremendo-se toda tirou um revólver da bolsa e apontou para mim. Eu fiquei tensa e implorei para que ela não levasse a minha bolsa, porque tinha os meus documentos, coisas que eram importantes para mim, se quisesse eu daria apenas o dinheiro. Ela olhou para mim e perguntou se a minha caneta ainda tinha tinta e eu mostrei que ainda estava na metade. A senhora pegou a caneta e seguiu em frente.
Logo em seguida um carro estaciona bem na minha frente e vários orientais saem de dentro dele. Uma família, suspeitei eu. Agarrei-me às minhas coisas e todos seguiram em direção ao restaurante. Guardei a minha agenda na bolsa e me levantei, entrei no restaurante lentamente, agarrada a ela, quando alguém me vê e grita:
– Ela ta tentando fugir sem nos dar nada!
Eu então começo a tentar me explicar e chorar feito um bebê no meio da fala.
– Não, eu já dei uma caneta para uma senhora, eu pedi para que ela não levasse a minha bolsa e ela aceitou ficar só com a caneta, não quero enrolar ninguém, é a verdade, podem perguntar a ela.
Um dos rapazes se compadece e me abraça. Eu então continuo a falar, só para ele.
– Eu sei que vocês não são más pessoas, que estão fazendo isso só por necessidade...
Eu senti carinho nos braços daquele estranho. Mas alguém o cutuca, avisando que já estavam voltando para o carro e me olha, perguntando na lata:
– E você? É vítima ou cúmplice?
Balanço a cabeça negando e o rapaz dos braços carinhosos vai embora. As pessoas no restaurante me fulminam com um olhar acusador e eu me direciono para a porta dos fundos. Quando eu estava saindo um garçom, pequeno e simpático, me aborda. Os assaltantes tinham deixado sacolas com algumas coisas e ele achando que eu os conhecia, veio me entregar. Perguntei-lhe se achava que todos estavam pensando que eu era cúmplice e ele disse que sim.
– Preciso ir para casa, não posso ficar aqui. Mas vou deixar meu telefone com você para que ninguém pense que estou foragida.
Entreguei-lhe meu número de casa e do celular e fui para a casa de um amigo.
Chegando lá vasculhei as sacolas, cheias de bugigangas aparentemente sem muita importância: carimbos, bonecos, DVDs... Peguei o DVD e coloquei no aparelho do meu amigo. Era uma série de TV. Com os assaltantes. Senti uma enxurrada cair em cima de mim. Toda a família trabalhava no mesmo seriado, que deve ter sido cancelado, deixando-os na penúria. De repente recebo uma ligação.
– Alô, é a Thaïs?
– É sim...
– Oi, é que eu tava assistindo televisão agora e saiu uma matéria falando sobre um assalto em um restaurante e você apareceu como um dos suspeitos...
– O quê? Eu? Mas eu deixei meu telefone lá, por que eles não me ligaram?
– Isso eu não sei, só to te passando o que vi na televisão.
– Obrigada por ter me informado, ta? Só quero que fique sabendo que isso é mentira, eu não tive nada a ver com esse assalto!
– Tudo bem. Boa sorte!
– Obrigada.
Desliguei o telefone, despedi-me do meu amigo e fui para a delegacia. Chegando lá na frente vi que já havia vários repórteres no local. Entrei na sala do delegado e pedi-lhe que apenas uma emissora de TV entrasse na sala para registrar o meu depoimento.
– Tudo bem. - disse-me ele - Mas você tem certeza? Seu depoimento vai ser visto por milhares de pessoas.
– Eu não tenho nada a esconder.
– Ok. Quer ligar pro seu advogado?
– Agora não. Só quero esclarecer logo esse mal-entendido.
O delegado chamou dois representantes da emissora que escolhi para entrar na sala e então comecei o meu depoimento, contando minuciosamente os fatos que eu lembrava.
– E foi isso que aconteceu. Eu só queria que eles soubessem que eu sei que eles não fizeram isso por mal, eu via que eles não estavam felizes em assaltar aquele restaurante, que foi tudo um fruto da necessidade extrema. Se eu pudesse, teria me tornado cúmplice deles, pois sei que eles não merecem ficar presos. Mas eu não posso. Não posso fazer isso com a minha vida. Tenho uma filha que depende de mim e isso não seria justo com ela. Por isso eu trouxe essa sacola que eles deixaram no local. – coloquei a sacola em cima da mesa do delegado e me virei para a câmera – Detesto ter que fazer isso, porque sei que teria gostado muito de conhecê-los em outra ocasião.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Autobiografia de uma desconhecida V

5. Pintinhos coloridos

Suponho que toda criança que viveu sua infância nos anos 90 teve pelo menos um pintinho colorido na vida. Ou talvez isso fosse só mania de paraibano insensível. Porque todos os meus amigos que contavam sobre esses pintinhos terminavam a história com o assassinato das pobres criaturinhas indefesas, e a máquina de lavar roupas era a arma número um. Eu também tive um, mas ao contrário da maioria, eu tinha muito cuidado com ele, não joguei no tanque, não atirei da varanda nem coloquei no forno.

Certo dia chega meu pai (ou terá sido minha mãe?) com dois pintinhos coloridos: um cor-de-rosa para mim e um amarelo para o meu irmão. Nomeei a criança de “Patricinha” e o do meu irmão chamava de “Joãozinho”; só não lembro se foi ele ou fui eu quem o batizou assim. O fato é que ambos cresceram saudáveis e sem grandes sequelas. Pelo menos até que meus pais resolveram cozinhar um deles. Mais cruel do que isso só quem come porquinhos-da-índia. Por mais que eu argumentasse, eles foram irredutíveis. Recusei-me a cometer tão horrendo ato de canibalismo (não que eu seja uma galinha, mas eles eram como filha e sobrinho para mim), tranquei-me no quarto e não quis comer nesse dia. Cientes do choque que haviam me causado, resolveram poupar Patricinha da insensível, cruel e desumana panela.

Mas qual não foi minha surpresa, tempos mais tarde, caída a tinta, que Patricinha estava mais para trava do que pra galinha! Meu pai então resolveu rebatizá-la e Patricinha se tornou Galalau. Galo brabo, corria atrás de todos da casa, então teve que ficar preso. Ele até que durou bastante tempo, porque nesse meio termo um mini-milharal nasceu no meu quintal. Mas os dias de Galalau estavam contados.

Surge então um novo morador na casa: Scooby-Loo, ou simplesmente Bilu. Acho que eu teria ganhado uma bolada colocando Galalau numa briga de galos, porque eita bichinho brabo danado! Arrumou briga com Bilu também, mas o mundo é dos mais fortes, e o galinho atrevido levou a pior. Um desperdício, talvez teria sido melhor se tivesse ido pra panela junto com seu irmão.

sábado, 28 de março de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Autobiografia de uma desconhecida IV

4. Colônias de férias

Um capítulo à parte na minha vida são as colônias de férias. Parando agora pra pensar, vejo que já fui a muitas delas, sempre por sugestão dos meus pais, provavelmente para que pudessem curtir as férias sem a pentelha aqui para cortar o barato deles. A que mais me marcou, talvez por ter sido a única que eu frequentei por vários anos, ou talvez por ter sido a última e, consequentemente, na qual eu estava mais velha, foi a do curso de teatro para crianças do grupo de palhaços Agitada Gang. Eu sonhava em ser atriz, então esse curso caiu como uma luva para mim e para os meus pais, que não queriam uma menina desocupada comendo biscoito o dia inteiro na frente da televisão. Muito provavelmente, foi lá que eu cheguei à conclusão de que não tinha o dom para a coisa.

No primeiro ano as aulas foram no Teatro Lima Penante. Sempre fui uma menina tímida e aquela atmosfera esmagava o que restava da minha autoconfiança. Mas mesmo assim, eu adorava aquele lugar. Subir num palco, mesmo sem platéia, era de uma magia indescritível e todas as pessoas ao meu redor pareciam fascinantes. Muito mais fascinantes do que eu, diga-se de passagem. Outra lembrança vívida dos tempos do curso é a dos casarões que ficavam nos arredores do teatro, todos belos e velhos, mas um em especial sempre mexeu com a minha imaginação pueril. Ele era enorme e tinha uma vasta área verde, com árvores altas e uma casinha nos fundos, provavelmente o banheiro.

Nos anos seguintes o teatro estava em reformas e as aulas aconteceram no Departamento de Comunicação da UFPB (que por sinal também precisava ser reformado) e na Casa Rosa (não a da Argentina, a de João Pessoa). Só no último ano que voltamos ao Lima Penante. Durante todo esse tempo eu levei minhas amigas para participarem do curso comigo, fiz papel de integrante de circo, paciente do SUS, contadora de histórias, criança mimada, nada de muito destaque, para a minha frustração. Mas existem momentos que passei lá que continuam vívidos na minha mente. Foi nessa época em que eu voltei a ter os dentes incisivos superiores (passei anos da minha infância complexada sem sorrir nas fotos), que eu tive a minha primeira guerra de tortas, que eu me apresentei no Theatro Santa Roza (ou Teatro Santa Rosa), caí de costas no palco ao tentar fazer uma “estrelinha”, usei um camarim e tive uma festa de encerramento das apresentações.

Não há dúvidas que nenhuma outra colônia de férias tenha me marcado como as do curso de teatro, mas há detalhes de outras que não foram esquecidos. Uma delas, talvez a mais remota, marcou-me pelo fato de termos feito biscoitos caseiros. Lembro-me dos formatos divertidos que todos faziam, como sofás, cadeiras, etc., enquanto eu, artista frustrada, não conseguia fazer mais que bolinhas ordinárias. Outra colônia da qual eu me lembro foi em uma fazenda. Pegamos um ônibus para chegar lá e eu nem sei quanto tempo ficamos, mas me recordo bem de uma apresentação que teve da história da Dona Baratinha (que anos mais tarde viria a se tornar um dos meus alteregos).

Não sei se a minha filha vai curtir as colônias de férias como eu, mas depois de todos esses anos eu reconheço que é um ótimo lugar para se saber um pouco mais sobre si mesmo, além de, obviamente, dar uma folguinha para os pobres pais, exaustos de cuidarem de crianças pentelhas como eu fui.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A ditadura da direita

Sandra era destra, mas gostava de escrever com a mão esquerda. Só para se mostrar reacionária diante da professora semi-ditadora que obrigava todos os alunos a escrever com a mão direita. Alegava que bons cristãos não deveriam usar a mão esquerda, caso contrário, o diabo guiaria suas palavras. A garota achava aquilo tudo uma bobagem e por mais que para ela fosse muito mais difícil, continuava fingindo sua “canhotice”.
Por causa disso, todos os dias entrava em conflito com a professora: gritos, agressões verbais, expulsões de classe e algumas vezes chegava ao cúmulo de ser suspensa. Os pais de Sandra não se conformavam com a situação e tentavam convencer a filha a escrever com a mão certa. Se ela ainda fosse canhota, pensavam eles, poderia até fazer sentido, mas a menina era destra desde o nascimento, aquilo tudo era inconcebível!
Da mesma forma que fazia com a professora, Sandra tentava convencer os pais da sua nobre causa: ela não era canhota, mas os demais alunos que eram obrigados a mudar a sua natureza? Sua mãe sempre dizia que os outros não eram filhos dela e que nem ela nem a filha tinham a obrigação de se importar com eles. Pobres garotos, respondia ela, que não tinham nem o direito de ter um porta-voz contra os desmandos insanos da professora beata.
Um dia ela resolveu radicalizar. Chamou todos para o pátio da escola, subiu em um banco e começou a discursar:
– Temos aqui em nossa instituição de ensino uma professora com mentalidade e práticas medievais!
A maioria dos alunos observava curiosa, apenas os canhotos da sua sala a aplaudiam fervorosamente.
– Esta carola, meus colegas – aponta para a professora ditadora – obriga-nos a escrever com a mão direita e estamos sujeitos a severas punições se não a obedecermos!
A esta altura a acusada olhava para os lados, desconfiada de tudo e de todos, rezando para que tudo aquilo fosse um sonho.
– Pois bem, eu estou aqui para desafiá-la. Se ela não parar com essa perseguição eu serei obrigada a cortar fora a minha mão direita!
Todos os presentes a encararam incrédulos.
– Se duvidam é só me trazerem um machado!
Aos poucos foram se afastando um por um.
– Vamos, o que estão esperando? Vão deixar que o preconceito vença a justiça?
Até que só sobrassem no pátio Sandra e a acusada.
– É, parece que só sobramos nós duas...
– Deixa logo de brincadeira, Sandra, e vai pra sala. Você hoje não sai daqui sem uma suspensão.
– Me deixa em paz, senão eu cumpro o que prometi!
– Tá certo, agora entra na sala que eu vou pensar o que faço com você.
– Você acha que eles acreditaram?
– É claro que não. Ora essa, cortar a mão. Você bem acha que eu não sei que é destra?
– Você sabe? Desde quando?
– Desde que eu vi os seus garranchos pela primeira vez. Por que você acha que eu insisti tanto para que escrevesse com a mão certa?
– Porque você é uma beata ditadora!
– Você tem muita imaginação, minha querida, deveria ser escritora.

Explosão

Fui à geladeira e servi-me um copo d’água. Poucos líquidos são tão bons quanto ela. Voltei pro computador e esperei, esperei infinitamente que algo acontecesse. Nada aconteceu. Pessoas iam e vinham, como sempre, mas eu estava ansiosa. Meus olhos tremiam e tudo que eu pensava era “será que eu estou prestes a ter um AVC”? Sempre fui muito agourenta. E melodramática. Eu passeava pelas páginas da internet à procura de algo que ocupasse a minha mente dos pensamentos inúteis, mas tudo que é inútil nos cerca como cães famintos.
Já sei, vou escrever, é sempre bom para exorcizar os fantasmas, pensei eu. Basta. Eles já fazem parte de mim e gritam frequentemente “desiste, estamos aqui para ficar”! Sempre tive medo de fantasma, melhor não mexer muito com eles. Que tal cantar? Afinal, “quem canta seus males espanta”, não é mesmo? Depende da música... Lembra daquela que dizia “meu bem, meu zen, meu mal”? Então...
Então ler! Uma leitura é sempre boa para acalmar os ânimos, esquecer do mundo exterior e lembrar-se apenas do universo que existe naquelas linhas. Mas quem consegue se concentrar com a mente cheia de fantasmas, cães, AVCs, males, bens e zens? Eu deveria mesmo é desistir e ir dormir, amanhã é um longo dia, cheio de revelações, emoções e por que não, perdições? Talvez porque as responsabilidades não me permitem. Mas que se explodam! Ou explodo eu.

Quem saiu foi tu!

Eu não estou ficando mais novo. Muitos dizem isso. Eu também não estou ficando mais nova. Pode parecer bobagem dizer isso, mas não é. Chega um momento em nossas vidas em que sentimos uma necessidade urgente de "recuperar o tempo perdido". Há quem chame isso de "crise de meia idade". Não deve ser o caso. Ainda há pouco eu vivia a "flor da idade". Tampouco deve ser depressão. Apenas a constatação do óbvio ululante. Mas ninguém tem nada a ver com isso o azar é todo meu. A-do-le-ta... Quem bebeu mor-reu, quem trepou, fo-deu! Puxa o rabo do tatu...

quarta-feira, 25 de março de 2009

Eu e meus erros

Inspirado ao som de "Lígia"

Eu nunca
soube na verdade
o que fazer
Se devia parar
Ou passar a correr
O amor
sempre foi o motor
mas agora eu não sei
se ele deve valer
todos os sacrifícios
Minha mente inquieta
Saliva dúvidas
por todos os meus poros
A saber
sou egoísta
e romântica
Mas se há uma antítese
o que devo fazer?
Esquecer e amar?
Aceitar e sofrer?

11/01/09

terça-feira, 24 de março de 2009

Música

Ela sempre me diz alguma coisa, mesmo quando não fala. Algumas me confortam, outras me desolam. Existem aquelas que me abraçam, mas às vezes o abraço é de despedida. Mas as mais impressionantes são aquelas que percebem o que acontece dentro de mim, antes de mesmo que eu o saiba; e me mostram, impiedosamente. Há também as que me mostram minhas origens, de onde vim e por que sou o que sou. E há ainda aquelas que falam “bunda, xereca, chifre”, mas essas não me dizem nada.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Blog

Gostaria de me reencontrar contigo. Lembra da época em que você ficava sabendo de tudo que acontecia na minha vida? Eu te contava os meus diálogos, tinha ideias engraçadinhas, estava sempre em busca da minha criatividade. Aí e fui sumindo, me ausentando, assumindo novas responsabilidades e de repente você estava em último lugar da minha lista de prioridades. Passei a te contar apenas frivolidades, coisas desinteressantes, usar-te para mostrar meus vídeos, porque eu sabia que você estaria sempre disponível para mim, sempre que eu precisasse de ti.
Aí a vida deu uma reviravolta. Eu me cansei de tudo e ao olhar para você, para o que você tinha se tornado eu fiquei triste. Você estava abandonado. Como tudo na minha vida, parecia que também era algo passageiro. Mas eu não quero que seja assim. Fico feliz que você esteja presente para me mostrar como eu era, como eu poderia voltar a ser, pelo menos em partes. Você sempre me incitou a estimular a minha criatividade e eu agora preciso retribuir. Vou atrás de coisas novas para que você e eu sejamos felizes novamente. Independente de quem esteja conosco. Esta é a minha declaração para ti, Kisuki.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

God Save the Queen!


Sempre fui admiradora da beleza oriental, mas de uns tempos pra cá percebi que o Reino Unido também merece a minha atenção. Para mostrar de maneira mais sistemática apresento-lhes uma lista das beldades do arquipélago. O primeiro da lista é Jude Law, nascido em Lewisham, Londres, Inglaterra. Segundo minha mãe, ele abusa do direito de ser bonito. Eu não só concordo, como acrescento: bonito e charmoso, porque só beleza não é suficiente.


Depois de Jude Law eu conheci Mark Darcy, ou melhor, Colin Firth, nascido em Grayshott, Hampshire, Inglaterra, que além de tudo é um fofo.


Continuando a minha análise profundamente intelectual, passamos a Jim Sturgess, também nascido na Inglaterra (vemos um padrão, os ingleses predominam nesta lista). Assim que ele começou a cantar I've just seen a face em Across the Universe eu tive vontade de arrancá-lo da TV pra deitá-lo no meu colo e fazer um cafuné...


Então eu assisti P.S. Eu te amo e vi que o privilégio não era apenas dos ingleses. Representando a Escócia (ele é de Glasgow) está Gerard Butler, que pode se transformar no ex-roqueiro amoroso completamente apaixonado pela esposa ou se você preferir pode ser também um rei guerreiro espartano.


E para ter certeza que todos os gostos foram contemplados, termino a lista com o último que conheci, Joseph Gilgun, nascido em Chorley, Lancashire, Inglaterra (à direita na foto acima) do filme This is England.

A minha conclusão, as ilhas da Grã Bretanha são ótimas para uma boa e diversificada pescaria. Se eu fosse solteira com certeza adoraria visitá-las!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Brios

Estou aqui para um desabafo. Sei que a minha proposta não é fazer daqui um diário, mas às vezes a pessoa precisa falar. E no fim das contas, essa merda é minha, lê quem quer!
Então... Cá estava eu saindo de casa para trabalhar e resolvo passar no posto para comprar uns docinhos (adoro comer docinhos depois do almoço... as pessoas costumam chamar isso de sobremesa... mas continuando!) As coisas já começaram mal lá mesmo. Hormônios flutuando ao meu redor, peguei um pacote de jujubas e quando fui ao balcão para pegar uma trufa de coco a fêmea tenta atingir o macho que se esquiva e tropeça em mim. Não me recordo de ter escutando um pedido de desculpas de nenhuma das partes. Então peguei a trufa e coloquei em cima do balcão, tirei o meu dinheiro e tentei perguntar para alguma das duas atendentes presentes quanto ficava o meu pedido. Mesmo depois da saída do macho nenhuma das duas tinha a intenção de prestar atenção em mim. Eu já devia ter mandado todo mundo tomar no cu dali mesmo, mas sou muito idiota e fiquei tentando chamar a atenção delas educadamente. Minha vingança se limitou a não dizer obrigada...
Mas isso foi o de menos. Saindo da loja de conveniências com minha trufa na mão começo a escutar "ei! ei! ei!" me seguindo insistentemente. Conhecendo as brincadeiras sem graça dessa juventude transviada prefiro fingir que não é comigo, acreditando inocentemente que o "chamador" desistiria. Mas ele não só desiste como acrescenta "ei, me dá um pedaço!". O que leva uma pessoa desconhecida a crer que eu daria um pedaço da minha trufa a ela? Enfim, eu tento ignorá-lo, mas é impossível. Eu digo que não dou, mas ele diz "só um pedaço, vai negar?" Eu digo que vou, mas tenho o costume irritante de ser delicada com pessoas que eu não conheço. Aí ele se enfeza: "num vai me dar um pedaço não, é? rapariga!" Rapariga? Rapariga? O que esses bostinhas pensam que os faz ter direito de me chamar de rapariga? Aí eu, sentindo-me muito corajosa, digo "é tua mãe." Ele me xinga mais uma vez e depois repito a mesma coisa. Pela primeira vez consigo ter um ato de tamanha bravura. Tá certo que ele devia bater no meu ombro, mas poderia ter jogado café morno em mim!
Atravesso a rua para que não haja nenhuma reação tardia contra a minha pessoa, e como de costume, começo a imaginar como eu deveria ter agido. Deveria ter sido mais enfática. Deveria ter dado umas boas bolachas naquele aprendiz de marginal. Quem ele pensa que é pra me chamar de rapariga? Rapariga é a senhora que o colocou no mundo e o deixa por aí pedindo um pedaço da trufa de gente que ele nem conhece. Por que eu daria um pedaço a aquele bostinha? Pra pegar herpes, sapinho, boqueira, cárie, afta, cabelo na língua? Tá, você deve estar pensando "nossa, como ela é preconceituosa, não é só porque ele é um aprendiz de marginal que tem algum problema bucal. de repente ele até tem todos os dentes!" Mas depois de passar 3 anos em Bodocongó, sendo xingada de mizera, rapariga, vendo meu marido apanhar com minha filha de 1 mês no colo, eu sinceramente não me martirizo mais nem um pouco pelo meu preconceito. Só pela minha falta de coragem de dizer a esses filhos da puta (porque raparigas são as mães deles, não eu!) tudo que eles mereciam ouvir.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Amor verdadeiro

Tenho desde muito cedo o costume de pegar os discos da minha mãe para ouvir. Certa vez peguei uma coletânea de jazz cantado só por mulheres. Confesso que foi mais pelo meu espírito feminista, mas acabei gostando verdadeiramente do CD. Eram dois discos: o primeiro com as novas divas do jazz. Adorei de cara. Escutei sem parar por vários dias, até que resolvi escutar o segundo disco, com a “velha guarda”. Tenho (ou pelo menos tinha) um pequeno preconceito com os discos dois dos CDs duplos e a primeira impressão que tive deste foi de “o primeiro é melhor”. Mas felizmente continuei ouvindo o disco dois, não sei se por preguiça de mudar, por persistência ou curiosidade. Passada a primeira impressão comecei a prestar mais atenção nas músicas e acabei sendo cativada por uma voz suave que cantava Stormy weather e Come rain or come shine. Passado algum tempo aquela pequena dose não era mais suficiente: eu estava viciada. Ou melhor, apaixonada. Eu me apaixonei pela voz de Billie Holiday. Constatada a paixão, fui atrás dela e encontrei nos CDs da minha mãe dois dela. Imediatamente os capturei e mantive comigo em meu quarto até eu sair de casa. Mas antes disso tivemos muito tempo juntos. Aquela voz me acompanhou nas noites mais tristes e mais felizes da minha vida.
Mas ter um vício nunca é coisa boa, e houve um tempo que ela começou a me fazer mal. Foi quando eu encontrei um outro amor e ela sabia exatamente o que se passava dentro de mim. Eu sentia então mais do que nunca que estávamos conectadas e por isso eu não queria deixar de sentir o que ela também me dizia que sentia. Até que percebi que isso devia acabar e nos separamos. Tirei seu CD do som e guardei na caixa até me recuperar.
Mas como eu disse, não foi só nas noites tristes que ela me acompanhou. Passada a minha tristeza, senti-me pronta para finalmente voltar ao seu lado. Meu amor então se consolidou sem ninguém para nos atrapalhar. Cheguei a conhecer outras durante todos esses anos, mas nenhuma conseguiu jamais abalar o meu amor.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Aroma

Agora eu sei como o cara d’O Cheiro do Ralo se sente. Digo “o cara” porque não me recordo dele ter um nome. Mas digo isso não pelo fato dele não ter nome, porque eu tenho e conheço muito bem o meu (só tenho sobrenomes meio obscuros), e sim por causa do cheiro. Ou dos cheiros. O cheiro do ralo também me persegue. Pinçadas aromáticas cutucam meu cérebro calejado de enxaquecas a ponto de me deixar atordoada. Nem sempre provenientes de um ralo, mas também de uma privada, ou até mesmo de uma colega de universidade com um perfume que mais parece A Fantástica Fábrica de Chocolates. Independente de suas procedências, eles pululam e chafurdam em minhas narinas como porcos na lama.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A referência da referência

E há quem diga que o Orkut é uma ferramenta inútil! Não que seja a minha opinião, mas enfim! Por meio deste é que fiquei sabendo que um texto aqui do blog foi citado em uma crônica do João de Freitas: http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=25542&cat=Cartas
Ora essa, kisuki também é cultura! Hehehe ;D

terça-feira, 15 de abril de 2008

Autobiografia de uma desconhecida III

3. A minha melhor amiga

Eu sempre costumo dizer que a minha vida daria um livro. Talvez dê mesmo, isso depende de quem vai escrevê-lo. O que estou fazendo aqui? Apenas um relato despretensioso.

Voltei do Rio, onde eu estudava em uma escolinha da farda branca e vermelha chamada Ioiô (ou seria Yoyô?) da qual eu me lembro apenas da festinha de aniversário que tive lá, para estudar em uma escolinha chamada Risque Rabisque. Era uma escolinha a três quarteirões da minha casa cujo nome eu adorava brincar. Isque Uísque. Fiquei empolgadíssima com a escolinha nova.

Cheguei lá em plena festinha de carnaval, todos dançando super fantasiados e eu vestindo apenas uma camisetinha do bloco de carnaval “Muriçocas do Miramar”. Parecia que eu era a única no lugar que não estudava lá desde o maternal. Menina tímida, deslocada, tive a minha salvação em uma menina magra vestida de pirata que logo veio à minha direção para me conhecer. Mais tarde descobri que era de praxe ela ser a primeira a fazer amizade com os novatos.

E foi assim que eu conheci a minha melhor amiga. Ao longo desses dezoito anos já brigamos muito, fizemos as pazes, viajamos, bebemos juntas, mas tudo começou com uma muriçoca e uma pirata no meio das fadas e princesas

terça-feira, 8 de abril de 2008

Autobiografia de uma desconhecida II

2. O Balão de Lula-lá


1989. eu tinha quatro anos e dormia numa gaveta. Minha raiva do mundo se resumia a isso. Meu irmão dormia na cama e eu na gaveta debaixo da cama. Obviamente, pensando no assunto hoje em dia chego à conclusão lógica de que não era uma gaveta, mas uma bicama. Mas não importa o que eu descobri agora, mas no que eu acreditava então.

Era o ano das eleições para presidente e eu estava no Rio de Janeiro com os meus pais e meu irmão Thiago. Morávamos num apartamento no Humaitá próximo ao corpo de bombeiros. O Gol vermelho do meu pai foi roubado na calçada do prédio.

Eu torcia para Lula-lá, mas por causa dele passei por uma das maiores frustrações da minha vida (que meu pai faz questão de não me deixar esquecer jamais!) Depois de um comício pedi para meus pais me comprarem um daqueles balões metálicos em forma de coração cheio de hélio, hidrogênio ou sei lá o quê. Quando chegamos no carro pedi ao meu pai que segurasse o meu balão para que eu entrasse no carro. Confiando nele, soltei o balão, que voou para a liberdade sem nem ao menos me dar um tchau. Aí eu desatei a chorar. E para me vingar, disse claramente que não votaria ais em Lula-lá. O foda é que doze anos depois eu quebrei a minha promessa.

Enfim, aquele foi o meu primeiro e último balão metálico de hélio, hidrogênio ou sei lá o quê.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Autobiografia de uma desconhecida I

1. O dia em que eu nasci


A única coisa da minha vida que eu posso falar anterior aos meus quatro anos foi do dia em que eu nasci. Não que eu me lembre, obviamente, mas os detalhes me foram contados inúmeras vezes, de maneira que eu possa descrevê-los como se estivessem vívidos em minha memória.

Depois de ler Léboyer, minha mãe entrou na viagem do parto humanizado (assim como eu, mas não vamos adiantar os fatos) e resolveu que eu nasceria em casa. E o meu pai embarcou na dela, pro desespero do obstetra. Apesar de muito querer, não conseguiu convencer o médico a fazer o parto na água (o que também era a minha vontade, mas o plano de saúde não cobria) e eu acabei nascendo na sala de casa. Pensando bem, acho que é melhor nascer em uma sala do que em um banheiro...

Nascida eu, começaram os desejos de me carregar nos braços (afinal, qual é o tesão que todos têm de carregar os filhos dos outros nos braços?), mas Léboyer alertava em “Nascer sorrindo” para ter cuidado com os olhos dos recém-nascidos, então todos que me seguravam tinham que andar de costas para que a luz do sol não ferisse as minhas sensíveis retinas. Ainda bem que ninguém tropeçou.

Eu também queria ter a minha filha em casa, mas hoje em dia eu meio que agradeço por não ter sido o caso, não sei o que teria sido de mim sem a epidural.

Enfim, eu nasci no dia vinte e cinco de outubro de mil novecentos e oitenta e cinco. Tenho certeza de que muita coisa importante aconteceu nesse ano, mas obviamente não lembro o quê.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Não sei se é porque me considero feliz ou porque entrei na universidade. Talvez seja porque estou cuidado de uma criança de quatro meses. Talvez seja simplesmente porque a minha inspiração acabou. Ou porque não tenho lido Haruki Murakami. O fato é que a tinta da minha caneta está seca.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Porco e vaca

Era uma vez um porco que comeu capim e começou a dar leite. Eram duas vezes uma vaca que voava para manter a segurança do pasto e se deparou com o porco leiteiro. Ela gritou lá de cima:
- Porco não dá leite!
E o porco, em seu lugar, apenas retrucou:
- E vaca não voa!
Indignada, a vaca chamou suas amigas pombas que zás! Miraram na cabeça do porco, que voltou cabisbaixo para a sua pocilga.
Ao chegar em casa, a porca sentiu o cheiro de leite e guinchou:
- Impeachment! - saindo logo dpeois para tirar satisfações com a vaca. Mas ao saber o que havia de fato se sucedido, perguntou à quadrúpede voadora:
- Posso voar com você?
E a vaca, ríspida, apenas disse:
- É claro que não.

Exercício realizado dia 13/02/2007 na aula de Projeto I

domingo, 28 de outubro de 2007

Como eu entrei no cheque especial

Cá estava eu no computador, editando algumas imagens, escutando o filme "Treze é demais" que passava na TV, quando meu marido falou "a gente tem que escrever um livro sobre a nossa vida". Não tenho a pretensão de escrever um livro sobre a minha vida (apesar de ainda querer escrever um livro, mas ficcional!), mas veio-me à mente escrever este post sobre "como eu entrei no cheque especial".
Quando você vai ao banco eles sempre dizem que você tem direito a X no cheque especial, limite Y no cartão de crédito, como se tudo isso fosse uma grande vantagem. Mas quando você chega no mês seguinte, crente que está com um crédito de duzentos reais e vai pagar suas contas, não entende porque o caixa eletrônico não quer liberar o seu dinheiro e vai lá no atendimento, perguntar o que está acontecendo.
É aí que você descobre que entrou no cheque especial! E você se pergunta "mas como? quando?", inocente, pois sempre consultava seu saldo antes de retirar qualquer quantia. Então você se desespera, porque está no fim do mês, os juros fazem com que sua dívida aumente a cada dia e pra completar, aquela conta de telefone que você achava que já estava paga não estava. Com isso você tem que tirar trezentos reais do nada para pagar todas as suas dívidas, faltando ainda dez dias para que você receba o seu próximo pagamento.
Se você tiver sorte, seu marido tem dinheiro na conta e pode emprestar-lhe algum no meio do sufoco. Então depois de meio litro de lágrimas de desespero derramadas, você paga todas as suas dívidas e volta ao atendimento para cancelar seu cheque especial, para nunca mais passar outro aperto similar. Mas descobre que se cancelar é pior, porque a taxa de manutenção aumenta de três para oito reais. Então, conformada, procura alguma tática para não cair novamente na máfia bancária do cheque especial.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

7 de janeiro

- Mãe...
- Hum?
- Seu João apareceu aí no muro e Madona ficou desesperada latindo pra ele.
- Que Seu João? O Cantor?
- Seu João, o doido que mora aí do lado!
- Seu Zé!
- Ah, Seu Zé! É quem é Seu João cantor?
- O sambista!
- Qual?
- Aquele que canta com Ana Carolina.
- Seu Jorge!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Discurso intelectualóide arrogante

Semana passada fui a um concerto de trombones e piano e na programação dizia que hoje teria concerto da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Fazia muito tempo que não ia às Quintas Musicais no Cine Bangüê e fiquei empolgada com a possibilidade de assistir novamente um concerto da OSPB. Então vim de Campina Grande para João Pessoa para ir ao concerto. Assim que a orquestra começou a tocar, meu sangue ferveu novamente. Como eu sentia falta daquilo!
A diferença é que na época em que eu freqüentava os concertos da cidade o cinema não ficava tão cheio. Nossa, o público pessoense está gostando de música erudita. Que maravilha! Pensei. Talvez até goste, mas gostam mais de pipoca.
Quando vi no programa que teria Bachianas soltei pulinhos dentro de mim mesma. Mas Bachianas não é Bachianas com alguém mastigando pipoca ao seu lado ou achando que as cadeiras contíguas do cinema são de balanço. Todo esforço, provavelmente, é válido quando se trata de apreciar a boa cultura erudita. Mas talvez eu precise de um esforço maior. Acho que não tenho senso de humor para aturar ninguém roncando do meu lado no meio do filme, brigando com um pacote de balas ou fazendo música concreta com um pacote de pipocas atrás de mim.
Engraçado, enquanto eu pensava em escrever essa postagem lá no meio do concerto soou-me tão engraçadinha... Acho que meu senso de humor está que nem os funcionários das universidades federais: em greve.

sábado, 14 de abril de 2007

Literalmente (repostagem)

Ela registrava sua vida por meio de frases de outras pessoas. Assim a sua parecia ter mais sentido. Se Shakespeare falou, então é certo. Era como um passo-a-passo para a vida perfeita. Tudo é perfeito na literatura. Até o que é errado. São erros perfeitos que encadeiam finais filosóficos. A literatura era o seu Bushidô.
Para não correr o risco de perder uma frase essencial para o discorrer da sua vida, carregava sempre um caderninho consigo. Infelizmente, procurando sempre manter a linha, acabou perdendo o fio da meada.


Dia 1º de janeiro escrevi esse texto. Com exceção da última frase. Essa eu só consegui escrever hoje.
Estava lendo os meus antigos blogs... Eu era tão engraçadinha. O que terá acontecido ao meu estado de espírito? Ou estaria o problema na minha imaginação? A universidade pode podar-nos de uma maneira tão negativa...

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Boas noite.


Olás terrásqwueoas. Venho por meio deastas menasgem aspreasentasr as mim e as todoas do meu plasnetas. Obrigasdas.

Boas tarde.

Nãso, eu nãso asou um mastuto. Nem eastou faslasndo gírias nenhumas. Iasaso é o qwue um víruas faszx com o aseu computasdor. Viu asó? Iasaso dificultas muito o entendimento entre as peasasoas.
Entãso digasm pasras aseuas pasias pasrasrem de asbrir asqwueleas videozxinhoas qwue oas asmigoas deleas masndasm por e-masil, porqwue asqwuelas porcasrias asãso cheias de víruas qwue fodem o aseu computasdor, entendeu?
Putas qwue pasriu.
Nãso, eu nãso asou emo. O meu teclasdo eastás faszxendo iasaso asozxinho. Eu juro qwue eastou teclasndo das masneiras corretas. Péasasimo de ler, nãso? Imasgine o meu deaseaspero em eascrever deastas masneiras!@
ASerás qwue reiniciasr o PC vasi funcionasr? Me deasejem asorte. ASe eu nãso voltasr, vocêas jás asbem o qwue asconteceu.
ASdeuas.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Literalmente

Ela registrava sua vida por meio de frases de outras pessoas. Assim a sua parecia ter mais sentido. Se Shakespeare falou, então é certo. Era como um passo-a-passo para a vida perfeita. Tudo é perfeito na literatura. Até o que é errado. São erros perfeitos que encadeiam finais filosóficos. A literatura era o seu Bushidô.
Para não correr o risco de perder uma frase essencial para o discorrer da sua vida, carregava sempre um caderninho consigo. Infelizmente, procurando sempre manter a linha, acabou perdendo o fio da meada.

domingo, 31 de dezembro de 2006

Fama

Seu sonho era aparecer no Big Brother Brasil. Na verdade o sonho começou ainda na época do Na Real da MTV. No fim das contas, era a maneira menos trabalhosa de ficar famosa, pensava.
Acompanhou o surgimento e a ascensão dos blogs. Obviamente, não podia deixar de ter o seu, mas dava muito trabalho atualizá-lo de maneira que as outras pessoas o achassem interessante. Deu graças a deus quando surgiram os fotologs, era uma maneira mais fácil e mais eficaz de se mostrar para o mundo. O problema é que quando conseguiu a sua câmera digital, os fotologs famosos já estavam consolidados.
Começou então a usar a sua câmera para tirar fotos nua. Fotos artísticas, pensava ela, estava se transformando em uma grande artista. Ficaria para os anais. Mas a arte foi ficando para trás à medida que o nível dos comentários ia diminuindo.
Sua fama por fim se restringiu aos punheteiros de plantão.

Baseado na foto do dia 31/12/2006 do fotolog bloodberry.

sábado, 30 de dezembro de 2006

O Gafanhoto Falante

Estava saindo da praia com alguns familiares, tínhamos acabado de ver o famoso pôr-do-sol da praia do Jacaré. Decepcionante. Entrei no carro e ao fechar a porta vi que tinha um gafanhoto me encarando da janela. O cumprimentei e ele, muito educado, cumprimentou-me de volta, como deve fazer um bom gafanhoto. Perguntei-lhe para onde ia e ele respondeu:

- Pra qualquer lugar.
- Está sem rumo?
- Vou para onde você for.
- Por que, gafanhoto?
- Quero ficar com você.
- Mas por quê?
- Fui com a sua cara.
- Olha, a minha cachorra não gosta de outros bichos lá em casa.
- Quem manda na sua casa é você ou a sua cachorra?
- Na verdade a minha mãe.
- E cadê a ela?
- Está no outro carro.
- E esse é o seu pai?
- Não, é o namorado da minha mãe.
- Eles brigaram?
- Não, ué.
- Enfim, isso não é da minha conta.
- Que mal lhe pergunte, por que você quer ir pra minha casa?
- Eu vou para onde você for.
- Olha gafanhoto, você tá muito folgado, me diz logo o que você quer senão eu te rebolo no mato.
- Eu só queria chamar a sua atenção.
- Pra quê?
- Pra ser mais famoso que os demais gafanhotos. Odeio o Grilo Falante, sei que posso ser muito melhor que ele. Nós gafanhotos somos muito mais cinematográficos.
Olha, o máximo que eu posso fazer é tirar uma foto sua.
- Tá bom, já é alguma coisa. Você tem fotolog?
- Tenho.
- Então posta a foto lá?
- Hum...
- Olha que se não postar eu puxo o teu pé de noite!
- Te enxerga, gafanhoto!

Baseado na foto do dia 30/12/2006 do fotolog bloodberry

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Espera

Cinco horas. Ela tinha chegado meia hora antes do combinado. Com sua mania de sempre achar que está atrasada acaba chegando sempre antes de todo mundo. Odiava isso mais do que chegar atrasada.
O tempo passava e nada. Ela acendia um cigarro, dois, pedia um chopp, um espetinho de calabresa. Ficou empanzinada e ainda nada. Resolveu passear pelo shopping, pra passar o tempo. Parou na frente da vitrine de lingeries por um bom tempo. Mas foi inútil.
Da próxima vez sairia com um decote maior.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Amendoins

Sexta-feira eu estava em um show e me perguntaram se eu ainda escrevia. Eu sempre fico surpresa ao descobrir meus "leitores". Principalmente quando se trata de pessoas desconhecidas, ou seja, aquelas que lêem por livre e espontânea vontade.
Eu falei que não escrevia há muito tempo, o que é a mais pura verdade, provavelmente desde que entrei na universidade. Hoje em dia, só para não deixar o blog abandonado fico colocando fotos de calcinhas... Mas fotos conceituais!
Minhas férias começaram, acabaram e eu não escrevi uma linha sequer. Pelo menos não uma linha literária (ou pretensa). Hoje em dia eu como jaboticabas na frente do computador olhando o orkut. Quem sabe dentro de uma delas eu não encontro os amendoins do Super Pateta?

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Trecho de um romance que estou tentando escrever...

- Preparada para a nossa primeira noite?
- Na verdade não, mas que diferença isso faz? – respondeu Sofia para o seu então cafetão.
- Boa garota. Continue assim e será a nossa Hilda Furacão!
- Tudo que eu sempre sonhei...
- Ih, já começou a resmungar, tão cedo?
- Relaxe, eu não vou te causar problemas.
- Assim espero. Mas escuta, o que você acha de ter uma chinfra?
- Tipo o quê?
- Um sotaque estrangeiro, sei lá! Inventa algo.
- Sempre quis ter um tique nervoso.
- Algo sexy, por favor.
- Hum... Você é homem, ajuda aí!
- Que tal um sotaque francês?
- Não, isso já ta muito batido! E se eu fosse frígida? Gélida?
- Frígida? Meu doce, se os clientes quiserem uma mulher frígida irão atrás das suas esposas, sai mais barato. Uma puta de luxo tem que ser ardente, enlouquecedora.
- Uau.
- Palhaça.
- Olha o respeito. Puta.
- Você tem uma bela boca.
- E daí? Sabe que não adianta me cantar.
- Deixa de ser burra! Escuta, teu charme pode ser a boca.
- Biquinhos etc?
- E um batom vermelho.
- Que coisa mais... esquece. Continue.
- Você retocaria o seu batom vermelho a cada cliente. O gastaria todo nos corpos deles. Seus lábios seriam lembrados nos sonhos de todos os clientes satisfeitos. Faria com que eles não precisassem desejar outro buraco do teu corpo além dela, a boca. Eles implorariam para morrer triturados pelos teus dentes, para terem todo o sangue bebido por você.
Enquanto tecia suas pretensões, os olhos do cafetão brilhavam alucinados, sonhando com um futuro de glória. Após alguns segundos de silêncio, o vendo sorrindo olhando para o nada, Sofia diz:
- Certo, e você pode me dizer como eu vou me transformar nesse aspirador erótico?
- Praticando, docinho. Agora corra e faça jus aos lábios que o Pai te deu!
Sofia mostrou um sorriso meio preso e saiu da casa para botar a boca no mundo.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Outros 500

Atirando para todos os lados. Vendendo o peixe, puxando a sardinha pro meu lado etc e tal.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Iuri e Yuri

Iuri conheceu Yuri quando esteve no Japão a trabalho. Ele e sua mulher foram convidados a jogar pachinko pelo seu sócio, mas ela ficou no bar conversando com ele, de modo que Iuri foi jogar sozinho.
Sentou-se intencionalmente ao lado de Yuri. Mulheres japonesas não o atraíam, mas ela havia causado uma estranha fascinação nele. Com os olhos fixos nas pachinko dama, demorou a perceber que havia se transformado no objeto de desejo do homem ao seu lado. No momento em que ia pegar mais bolas Iuri a abordou.
Olhou para o bar e viu sua mulher entornar a terceira bloody mary. Entretanto, Iuri não falava japonês. Yuri olhava-o como se esperasse que aquele estrangeiro lhe dirigisse frases em sua língua mãe.
Ela sorriu. Cumprimentou-o em francês, inglês, italiano e russo. Ele sentiu-se aliviado. Convidou-a a sair dali. Sua mulher já estava no quinto drink. Yuri olhou para o bar e aceitou o convite.
Depois da nona bloody mary, a mulher de Iuri levantou-se apoiada pelo sócio e voltaram para o hotel. Arrumaram as malas e retornaram à Rússia no dia seguinte. No vôo de volta tomaram whisky cowboy.